Ensaios DANIELA VERSIANI

O EU SE ESCREVE, O OUTRO ME ESCREVE

 

A primeira edição da RED_Revista de Ensaios Digitais - O eu se escreve. O outro me escreve - traz ensaios que tematizam as escritas de si em sua relação com as escritas sobre o outro e problematizam as fronteiras que estabelecem os limites entre espaço ficcional e espaço do real.

As designações “escritas de si” e “escritas sobre o outro” são tentativas preliminares de desfazer fronteiras, por se referirem de modo bastante abrangente às autobiografias, diários, memórias, testemunhos e às biografias e etnografias, respectivamente. Contudo, tais designações ainda consideram dois campos discursivos em separado, sem reconhecer as relações interacionais que os permeiam. Afinal, as identidades de um “eu” e de um “outro” não se constituem isoladamente, mas tão somente em interação: o eu se escreve - e revela - à medida que descreve - e revela - o outro.  Os ensaios reunidos nesta edição questionam tal separação, buscando por conceitos e dispositivos que nos permitam explorar esses dois campos discursivos de modo relacional. 

Outro aspecto abordado com ênfase nos ensaios que compôem esta edição temática é a tênue separação entre ficção e realidade, tanto nas escritas de si quanto nas escritas sobre o outro, questão muito presente nas narrativas contemporâneas que transitam entre “referencialidade” e “ficcionalidade”, explorando a instabilidade das fronteiras que separam esses dois territórios discursivos.

No ensaio Autoficção e sobrevivência, Eneida Maria de Souza traz à discussão as “autoficções”, apontando para o “pacto ambíguo entre escrita e vida, entre a leitura e a sobrevivência de resíduos de identidades” que esse gênero provoca. Como explica a autora, autoficções são “relatos híbridos, indeterminados, que ocupam o lugar móvel entre romance e autobiografia”, tendo por principal função “embaralhar o aspecto referencial da autobiografia e a pretensa autonomia da ficção”.  Pela leitura de narrativas autoficcionais, a autora aponta para as várias propostas de escrita/leitura que esse gênero ambíguo e híbrido permite, entre elas a compensatória, a autoajuda, a de preenchimento do vazio, a de abolir a distância ente arte e vida, reiterando o paradoxo entre saúde e doença, morte e sobrevida.

A propósito da crítica biográfica -- Eneida Maria de Souza resgata lições de Borges, de Marília Rothier Cardoso, focaliza a retomada da biografia do escritor como subsídio para a crítica, atualizando essa estratégia por meio do reconhecimento da ficcionalidade do discurso biográfico. Marília Rothier Cardoso destaca a importância, no Brasil, das contribuições de Eneida Maria de Souza para o tema, fazendo o rastreamento das propostas da teórica para esse campo e dos antecessores que esta elege, com destaque para Jorge Luís Borges, cujos ensaios investigativos confundiam-se com suas ficções, garantindo a força especulativa dessa arte. Para finalizar, Marília Rothier Cardoso oferece uma amostra do método, fazendo considerações, a partir de registros arquivísticos, sobre a produção plástico-literária dos poetas parceiros Murilo Mendes e Jorge de Lima.

Em Longe dele, longe dela, Rosana Kohl Bines se debruça sobre os livros  A espécie humana, de Robert Antelme, e A Dor, de Marguerite Duras, obras geradas a partir de experiências do casal de escritores que militou na resistência francesa durante a ocupação nazista até a prisão de Antelme pela Gestapo e sua deportação para um campo de concentração na Alemanha, em 1944. Explica-nos Rosana Bines que o livro L´espèce humaine, publicado em 1947, é o testemunho da rotina desumana a que foi submetido Antelme em Gandersheim e Dachau. A dor, publicado apenas em 1985, é resultado da (re)escritura de dois diários que Duras manteve durante os meses em que o marido esteve desaparecido. O ensaio destaca a presença recíproca de Antelme e Duras em suas respectivas obras, tornando visível a filigrana de sentimentos que reunia os dois escritores na escrita e na vida. Ao estabelecer uma estratégia de leitura que recorre a aspectos da vida do casal, Rosana Bines legitima a conexão vida do autor/gênese da obra e atualiza a crítica biográfica, mostrando ser a única suficientemente abrangente para dar conta daquelas obras que, se têm por gênese a experiência de vida, caso do testemunho e do diário, ultrapassam a dimensão referencial desses gêneros a ela somando as nuances que só o discurso literário – com seu empenho sobre a palavra - consegue alcançar.

Com um olhar atento às relações entre ficção e teoria, Simone GrecoO falso mentiroso, de Silviano Santiago, destacando a perspectiva metateórica adotada pelo autor como estratégia de construção do romance.  Em seu ensaio - Um narrador confiável?: a narrativa teorizante de Silviano Santiago – Simone Greco aponta para o que denomina um “enunciado ondulante”, erigido por meio do desdobramento da voz narrativa em um eu-ficcional. A autora conclui que, pela alternância entre a projeção de referências biográficas do eu-empírico e a projeção de um autor-personagem, construído discursivamente a partir de tais referências, Silviano Santiago questiona o tom confessional predominante na estética contemporânea, rompe com o modelo de narrativa pautado pela fala do eu e redefine o espaço ficcional ao incorporar (na ficção) procedimentos antes restritos ao espaço do discurso teórico-crítico. Como elemento implícito da reflexão de Simone Greco está a potência teorizadora do discurso ficcional.

Em Relatos autobiográficos desfocados, Heidrun Krieger Olinto aborda as complexas articulações entre a história da vida privada, proposições teóricas defendidas diante de comunidades científicas e compromissos políticos assumidos em contextos histórico-políticos específicos, relacionando vida privada e produção de teorias. Para tanto, Olinto analisa “Historia calamitatum et fortunarum mearum or: a Paradigm Shift in Literary Study”, idealizado por Hans Robert Jauss como “piece of scholarly autobiography” (p.113) e não como análise objetiva do estado-da-arte no território disciplinar dos estudos literários, relacionando esse ensaio com contextos histórico-políticos em que Jauss esteve inserido. O escândalo da descoberta do passado nazista de Jauss provoca um rearranjo nos modos de percepção da sua obra.

Mariana Simoni entende que o contexto epistemológico atual se caracteriza “pela interseção não cristalizada entre campos disciplinares expandidos, desinteressados da preservação da própria identidade em competição com outros campos de saber”. É a partir desse pressuposto que, em Realidades inflamadas: performance e sonhos na autobiografia de Hanna Schygulla, a autora se aproxima do livro Wach auf und träume [Acorde e sonhe, 2013], da atriz alemã, ressaltando nessa obra o “gesto singular de escrita de si e performance autobiográfica” que motiva em seus leitores a necessária construção de um olhar híbrido, já descompromissado com a regra estabelecida pelas fronteiras rígidas e fixas que um dia separaram “literatura” e “teatro”.  Dona ela própria de um olhar híbrido, treinado para as complexidades, Mariana Simoni procura investigar em que medida o livro de Schygulla vai além da mera inscrição no gênero autobiográfico para chegar a ser compreendido enquanto performance da própria vida da autora e contribuição para a construção social do cotidiano.

Em Diários: um trabalho da memória ou do esquecimento?, Sergio da Silva Barcellos investiga os aspectos relacionados à temporalidade do diário pessoal em conexão com os processos de formação e consolidação da memória do sujeito que o escreve. Recorrendo à definição neurocientífica de memória como “capacidade de um organismo para armazenar, reter e recordar informações e experiências”, Barcellos busca estabelecer uma distinção entre a temporalidade da escrita autobiográfica, em geral, e a do diário, em particular. Nas palavras do autor, o diário “seria uma narrativa exemplar de um certo grau de referencialidade que parece se mostrar muitas vezes claudicante em narrativas autobiográficas e memorialísticas”. 

Gabriela Lírio Gurgel e Maria Teresa Ferreira Bastos exploram as possibilidades oferecidas pelas imagens como espaço para construção do (auto)biográfico e das subjetividades, recorrendo ao estudo do portrait e à noção de performance. 

O ensaio Movimentos auto(ficcionais): um ensaio sobre a memória e a morte, de Gabriela Lírio Gurgel investiga a obra de Francesca Woodman a partir dos conceitos de autobiografia/autoficção. O objetivo principal das reflexões da autora é examinar as estratégias de autorrepresentação da artista na criação de seus autorretratos, bem como as relações espaço-temporais reveladas através de seu corpo-imagem. O ensaio de Gabriela Lírio Gurgel se desenvolve exemplarmente enquanto abordagem transdisciplinar, uma vez que atravessa os campos de estudos da literatura, estudos da imagem e das artes performáticas.

Maria Teresa Ferreira Bastos aborda o portrait fotográfico enquanto prática que remonta aos primórdios da fotografia no século XIX e que assume variadas funções, entre elas a função biográfica. Em O Retrato Fotográfico entre a pose e a performance, a autora destaca o rosto dos retratados como local de representação do tempo, dos sentimentos, das máscaras e das ausências. Estas questões são abordadas a partir de teorias contemporâneas de imagem performada do historiador Michel Poivert, tendo como referência obras dos artistas Rosângela Rennó, Thomas Ruff, dos filmes Pina, de Wim Wenders e 48, de Susana Sousa Dias.

Partindo de uma aproximação entre as etnografias e as escritas de si,  em Banzar ao atá: por uma deriva etnográfica, Thiago Florêncio aposta em uma estratégia de escrita que radicaliza a autorreflexividade do produtor de conhecimento, contribuindo para a construção de modos alternativos de realizar a conexão entre escrita e experiência: aqui, a do próprio autor do texto. Neste ensaio, Florêncio  descreve a “performance de deriva” realizada por ele próprio enquanto participante do coletivo artístico DIGIBAP na zona portuária do Rio de Janeiro. Ao dobrar-se sobre si mesmo em abordagem autorreflexiva, Florêncio oferece ao leitor uma alternativa ao texto acadêmico tradicional por meio da estratégia de tornar visível a subjetividade do pesquisador, que é incluído no texto como um dos objetos de reflexão. O objetivo dessa estratégia, esclarece Thiago Florêncio, é “pensar como o engajamento dos corpos em deambulações aleatórias e no encontro inusitado com materialidades fortuitas podem contribuir para uma forma diferenciada de se escrever etnografia, levando-se em conta as fronteiras híbridas entre o eu e o outro, entre o corpo e a cidade, entre a memória e a ficção”. 

Para entender a grande beleza, de Daniela Versiani, é um experimento de escrita que, através da milenar estratégia retórica da personificação (ou prosopopeia), constrói uma subjetividade ficcional para a também milenar cidade de Roma. A autora explora as fronteiras difusas entre história e ficção, poesia e prosa e estabelece um diálogo com o filme La grande bellezza (2013)de Paolo Sorrentino. Dessa forma, oferece um caminho alternativo de leitura do texto-cidade de Roma.

Esta edição traz ainda duas entrevistas em torno das relações entre escrita e subjetividade. 

Na entrevista ‘Todo enunciado é organização provisória’, o escritor Luiz Ruffato reflete sobre as relações entre ficcionalidade e referencialidade; discursos literários e (auto)biográficos; história, memória coletiva e ficção; jornalismo e literatura; papel do escritor e papel do leitor; escritura e (re)escritura. Além disso, discorre sobre  o modo como a literatura contemporânea é rotulada e apropriada pelo mercado editorial. Ao elaborar suas respostas, o escritor se torna também teórico de sua obra, uma vez que expressa sua particular visão sobre os pressupostos que adotou para compor alguns de seus livros.

Conversa em torno de Anthony Burguess traz o diálogo entre Amaury Garcia e Andrew Biswell, autor da biografia The Real Life of Anthony Burgess, diretor da International Anthony Burgess Foundation e Professor de Literatura da Manchester Metropolitan University. No encontro, os dois pesquisadores conversam sobre a biografia  The Real Life of Anthony Burgess e o 50o aniversário da publicação de Laranja mecânica (A Clockwork Orange). 

Não deixem de conhecer também a seção "Experimentos", que traz contribuições de Ana Kiffer, Sílvio Crisóstomo e Diana Sandes, entre outros colaboradores.

 

A editora

 

 

Ilustração: Red and Blue, de Andy Maguire 

COMO CITAR
VERSIANI, Daniela. O EU SE ESCREVE, O OUTRO ME ESCREVE. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. ISSN: 2525-3972 Disponível em http://revistared.com.br/artigo/91/o-eu-se-escreve-o-outro-me-escreve.

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