Entrevistas DANIELA VERSIANI

"TODO ENUNCIADO É ORGANIZAÇÃO PROVISÓRIA" ENTREVISTA COM LUIZ RUFFATO

Um dos escritores de maior destaque da literatura brasileira contemporânea, Luiz Ruffato é reconhecido não apenas pela consistência de sua obra ficcional, mas também por ser um dos poucos escritores da atualidade que intervém de modo constante e significativo nos debates sobre a realidade brasileira, de modo que se pode acrescentar à palavra “escritor”, que o acompanha, também a palavra “intelectual”. Suas visões sobre cultura, política e literatura podem ser conhecidas através de artigos que publica em jornais de grande circulação e das entrevistas que concede. Talvez menos visíveis ao leitor comum sejam as reflexões de Ruffato sobre o fazer literário e sobre a sua própria obra, que contudo podem ser conhecidas a partir das inúmeras entrevistas concedidas a diferentes publicações e veículos especializados. Nesta entrevista, realizada por e-mail, Ruffato reflete sobre as relações entre ficcionalidade e referencialidade, discursos literários e (auto)biográficos; história, memória coletiva e ficção; jornalismo e literatura, papel do escritor e papel do leitor; escritura e (re)escritura, e sobre o modo como a literatura contemporânea é rotulada e apropriada pelo mercado editorial. Lembrando que, etimologicamente, a palavra teoria deriva da palavra grega para “visão”, é possível afirmar que, aqui, Luiz Ruffato é também teórico de sua própria obra, uma vez que expressa sua visão sobre os pressupostos que adotou para compô-la. Se a entrevista é um modo de construir a própria subjetividade a partir das expectativas sobre o outro e das provocações de um outro, em um movimento interacional que parte, ou tenta partir, de um “empenho sincero”, o leitor experimentado saberá que, no breve diálogo que se segue, não está presente apenas a lógica da sinceridade mas também os movimentos de idas e vindas da escrita, da (re)escrita e da performance, cordas estendidas por onde se equilibraram entrevistado e entrevistadora.

 

Luiz Ruffato   

Daniela Versiani 

 

Daniela Versiani: Em uma entrevista ao Jornal Cândido, de Curitiba, você comentou: "Sinceramente, não tem nada de autobiográfico nas minhas histórias. Absolutamente nada. Mas isso também não é verdade".  Gosto muito dessa fala porque ela é ambígua, é contraditória, e aponta para a relação complexa entre verdade e ficção, autobiografia e ficcionalização do eu. A discussão sobre a instabilidade das fronteiras entre realidade e ficção remonta aos gregos, mas nos últimos anos tem sido revisitada pelos estudos das autobiografias, biografias, autoficção e bioficção. Como sua história pessoal e familiar participa da composição de suas obras?  Ao escrever ficção, você estabelece um limite entre aproveitamento necessário e exposição desnecessária de acontecimentos da sua vida pessoal e familiar?

Luiz Ruffato: Penso que se há algo que caracteriza a contemporaneidade talvez seja a radicalização do discurso do narrador não confiável, que relativiza a essência da verdade absoluta. Se não existe uma realidade fora de nós como existência autônoma, toda sentença é construção subjetiva, todo enunciado é organização provisória de fragmentos de dados objetivos. Portanto, qualquer formulação discursiva é apreensão precária de um átimo da História na qual o próprio sujeito que fala está imerso. Ou seja, toda ficção é autobiográfica, pois, antes de ser literatura, é vivência individual. O desafio é transfigurar essa experiência íntima em memória coletiva, na qual o leitor se reconhece e se ressignifica. Assim, as denominações para o fenômeno literário contemporâneo apenas servem para elucidar o mercado livreiro – não são conceitos, mas etiquetas que se apõem a produtos. O que dá dimensão à literatura não é o meio em que ela se inscreve, mas o fim a que se destina. Literatura é transcendência – um texto alcançar sentido para além do espaço e tempo e língua no qual foi concebido.

D. V.: Você costuma se referir à importância da "memória coletiva" na produção de suas obras. Minha pergunta segue o caminho contrário: como você vê o papel do escritor na construção da memória coletiva?

L. R.: A construção da narrativa de ficção ocorre por meio de um contínuo fluxo que nasce e deságua na memória coletiva. A memória coletiva é o receptáculo da História – não-lugar para onde convergem todas as vivências humanas. Mergulhado no cotidiano, o escritor encharca-se da experiência do outro, absorvendo como sua a existência alheia – no seu corpo instaura-se a história comum, que, feita de cheiros, gostos, cores, ruídos e formas, transfigura-se em sangue, matéria vital do texto literário. Publicado o livro, desaparece o escritor e irrompe o leitor, que, apropriando-se do fato narrado, realimenta a memória coletiva. Portanto, o escritor aparece como uma espécie de túnel estreito que conduz o tráfego ininterrupto entre experiência individual e memória coletiva.

D. V.: Antes de conseguir se dedicar à literatura em tempo integral você trabalhou como jornalista. Segundo o senso comum, o jornalista deve reportar fatos relevantes para a sociedade "tal como ocorreram", ou seja, em um registro não-ficcional. Quanto do jornalista Luiz Ruffato está presente na construção de suas obras e, particularmente, na série Inferno provisório?  É possível narrar o que de fato importa (os “fatos relevantes”) sem recorrer à ficção? Você buscou a ficção para conseguir afinal escrever a sua "grande reportagem" sobre a imigração italiana e sua participação na formação de parte da classe trabalhadora brasileira?

L. R.: Jornalismo e literatura buscam resultados diversos. O que os diferencia não é a matéria, mas a abordagem. O jornalismo se quer objetivo, pretende ser a descrição imparcial da realidade, e naufraga nessa incongruência: alicerçar-se na imparcialidade da descrição e no absoluto da realidade. A literatura assume que toda narrativa é reconstrução, incompletude. O jornalismo oferece verdades – verdades são paisagens desérticas que mudam com a força dos ventos.  A ficção propõe um pacto de verossimilhança, o que cede espaço à imaginação do leitor para recriar, a partir de sua própria experiência, o universo compartilhado. O jornalismo, para alcançar o máximo de leitores, padroniza a linguagem, empobrecendo-a. A literatura inocula significados novos às palavras, reformula a sintaxe, funda possibilidades de conhecimento. O jornalismo esgota-se em si mesmo – a literatura inaugura o leitor todas as vezes em que ele abre um livro, e todas as vezes em que ele o fecha.   

D. V.: Um aspecto muito interessante de Inferno Provisório é que, nele, você reescreve alguns textos já publicados em Histórias de remorsos e rancores (1998) e (Os sobreviventes) (2000). Eu leio essa reescritura como uma espécie de rompimento com a regra da estabilidade da escrita: escrita publicada, escrita congelada (morta). Eu também leio a reescritura desses textos como expansão de um mundo ficcional que você começou a construir lá atrás, expansão que permite à sua escrita ganhar a instabilidade das coisas vivas. Estas são apenas minhas hipóteses de leitora (muito provavelmente equivocadas). Por que a necessidade de retomar esses textos nessa obra? O que o exercício da reescritura significa para você?

L. R.: Literatura é vida – e vida é mutação. O ofício do escritor guarda alguma similitude com o trabalho do cientista. Ambos perseguem a compreensão do incompreensível, pois a natureza, física ou humana, nunca será totalmente desvendada. Mas ambos também entendem que é possível aproximar mais e mais da essência do objeto de estudo. Só que, a cada degrau galgado, novas perguntas assomam, tornando ultrapassadas as ferramentas utilizadas. O conhecimento se faz, na física, como na literatura, por acumulação  seletiva – busca-se um sentido, não uma direção. Um livro publicado significa a materialização de um fragmento da realidade aparente por meio da linguagem. Mas a linguagem é instrumento precário para descrever a aventura do ser humano no mundo. Meus livros são informes provisórios de uma batalha em curso, passíveis, portanto, de constante atualização. Eles eram muitos cavalos ganhou revisões críticas na 6ª e na 11ª edições. De mim já nem se lembra tem, em Portugal, uma edição revista e modificada. Para compor o Inferno provisório foram reapropriados os livros Histórias de remorsos e rancores (os sobreviventes) que não constam mais da minha bibliografia – e, neste caso, o processo é ainda mais drástico: os cinco volumes originais foram agora reescritos e rearranjados e sairão, daqui para a frente, em volume único.

D. V.: Em algumas entrevistas você afirmou que para compor Inferno provisório você precisou romper com o romance burguês tradicional e criar um modo de narrar alternativo a ele. O resultado foi uma narrativa fragmentada com alto grau de lirismo e experimentação. Já no romance Flores artificiais você retoma uma das mais consagradas estratégias do romance tradicional: o manuscrit trouvé, um topos literário antigo, reutilizado por Daniel Defoe, em Robinson Crusoé, e Umberto Eco, em O nome da rosa. É um artifício usado para criar o efeito de realidade, dando veracidade a uma história ficcional. Quanto mais perfeito o artifício, maior a sensação, no leitor, de estar diante do real. De fato, o realismo é o mais ilusionista dos estilos. A retomada de um artifício narrativo de longa tradição logo depois de Inferno Provisório, tão experimental, me surpreendeu (positivamente). Poderia escrever um pouco sobre a decisão de adotar esse artifício? Significou uma guinada na sua trajetória como escritor?

L. R.: Cada história exige uma maneira específica para ser contada. Minha trajetória constitui-se inteiramente de experiências formais. Eles eram muitos cavalos, espécie de catálogo de possibilidades narrativas, que denomino “instalação literária”, é o núcleo de onde emanam todos os outros livros. De mim já nem se lembra atualiza o romance epistolográfico, muito em voga no século XVIII e começo do século XIX. Estive em Lisboa e lembrei de você recicla o romance-reportagem, que teve seu boom entre as décadas de 1960 e 1980. Flores artificiais dialoga com a ideia de um livro dentro de outro, presente em Dom Quixote, usada à exaustão no Romantismo. Inferno provisório, meu projeto mais ambicioso, inverte o conceito de realismo socialista, escola que acentua o naturalismo e empenha-se em construir uma história coletiva em detrimento do indivíduo. Neste romance de quase mil páginas, fundo o realismo capitalista, narrativa que também pretende desenhar a história coletiva, mas centralizada no sujeito – o indivíduo é o protagonista. São, portanto, reapropriações de subgêneros narrativos, mas não paródias. Literatura é artifício; por mais paradoxal que possa parecer, quanto mais artificial, mais real. Portanto, Flores artificiais não é uma guinada, mas insere-se dentro do meu projeto, que é colocar-me em situação de desconforto a cada novo livro planejado.

D. V.: Estou curiosa sobre o retorno que você tem tido com Flores artificiais. Como tem sido a recepção do livro quanto a esse jogo entre realidade/ficção? Você percebe diferenças de recepção segundo o tipo de leitor?

L. R.: O leitor do século XXI, como seus antepassados, ainda busca nas narrativas a Verdade. Centenas de anos escoaram desde o estabelecimento do romance como forma de recriação do real – e não como sua descrição – e ainda hoje autor e narrador são confundidos como ente único. O pacto de verossimilhança, base do diálogo proporcionado pela ficção, em geral ultrapassa involuntariamente seus limites para tornar-se crença. A pergunta se o que vem narrado é verdade, se tudo aquilo existiu, se é produto da experiência pessoal, se é simples invenção, não guarda resposta, pois tudo numa obra de ficção é criação e é lembrança – a imaginação, por mais engenhosa, calca-se sempre na memória, não na individual, falha e erradia, mas na coletiva, que inclui a nossa, mas nutre-se de todas. O leitor, no caso, comporta-se como um agnóstico teísta, que, embora admita a existência de uma verdade por trás da ficção, desconfia que pode estar sendo enganado. É esse fascinante jogo que torna a ficção mais real que a realidade.

D. V.: E uma última pergunta (um tantinho maliciosa): Flores artificiais é uma resposta às avessas ao boom das autoficções?

L. R.: Não me pauto pelas novidades do mercado. A autoficção, assim como todas as outras denominações mercadológicas, não carrega em si um índice de qualidade. Para mim há Literatura, se alcançar a transcendência necessária para subsistir. E quem determina sua permanência é o lento transcorrer do Tempo, esse juiz implacável. Flores artificiais é desdobramento natural das minhas pesquisas – o desenraizamento é a questão do homem do século XXI e representá-la é assumir as limitações da narrativa de ficção. O capitalismo, demonstrando imenso ecletismo, vem se reinventando ao longo da história – o romance, seu espelho, acompanha essas mutações. Creio que a prevalência de narrativas conduzidas por narradores não confiáveis reflete o espírito do tempo – a sociedade humana nunca foi tão egocêntrica, tão pouco solidária, tão opaca. Assim também as narrativas de ficção.

 

 

Luis Ruffato é autor de Eles eram muitos cavalos, Inferno provisório, Flores artificiais entre outras obras.

Daniela Versiani é Doutora em Letras, tradutora e escritora de ficção. 

 

Ilustração: Youth on the Move, DG EMPL/Flickr 

COMO CITAR
VERSIANI, Daniela. "TODO ENUNCIADO É ORGANIZAÇÃO PROVISÓRIA" ENTREVISTA COM LUIZ RUFFATO. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. ISSN: 2525-3972 Disponível em http://revistared.com.br/artigo/89/todo-enunciado-e-organizacao-provisoria-entrevista-com-luiz-ruffato.

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