Experimentos ANA PAULA KIFFER

O DESAPARECIMENTO DAS COISAS: VIOLÊNCIA E IMAGEM

Ana Kiffer - © Todos os direitos reservados

 

    Ana Kiffer  

 

O outro dia quando gaguejava ao tentar falar o teu nome. O nome dos teus livros. O nome de todos os nomes. O livro de todos os livros. Toda a história das vozes caladas.

aqui.

Toda a potência muda daquelas mulheres.

aqui.

Todo o corpo cardado. O meu o teu o nosso.

O outro. O dia.

aqui.

Sim. a gagueira faz crescer estranhos ovos no pescoço. Sim. o pescoço se dilata todo em não dizer. Sim. os dedos finos tremulam. Sim. o coração transpira. Sim. o sangue de muitas.

Sim.

 

 

Escorre aqui agora. A tua imagem. Evanesce. Chora minha mãe. Minha avó. A cabocla que gerou. Choro eu. Minha tia. Minha filha.

 

 

O leite sim se derrama. Em mar de sangue. Em giro, vermelho.

um vermelho sem precedentes. borrando cada parte desse corpo.

Cardado.

Perdido no mar. Sem peixe.

Toda a gagueira do mundo. Não é o mesmo que o sem voz. Escute aqui. Elas falam. Escute aqui. O tremular daquela letra. Daquela terra. Escute aqui. Se soltou. Olha até onde ela vai. Escute aqui. Se colou. Ao teu corpo. Escute aqui. Aquele que me violou.

Olha aí! Segura!

Ela desce, em cada dobra que faz. Ela gira.

O cerco já não fecha. A flecha já não inspira.

Sua em meu sangue essa gota que agora te borra. Finalmente te entrego. Essa carta tardia.

 

 

 

Outro rumo. Outro prumo. Alquebrado. Em sua doce torpeza. Vulnerável. Em toda a sua leveza.

Tomo aqui.

Essa força que leva. Toma aí.

Já em outra quebrada. Já solta. Pirada. Já prenhe. Lavo comigo todas vocês. As mulheres dessa história não contada. O pouco falar de tantas vidas. Levo comigo todas vocês.

Ali onde evanesce teu rosto. Te vejo. Aqui nessa dor que habita. Onde algo da vida se escava. Teu cabelo ainda denso. Em minhas mãos. O laço de fita branco. Arrancado. Ao chão da terra lúgubre. O vermelho. Essa imensidão.

Signo que se repete. Letra esvaziada.

Te vejo desaparecer. Essa foto que te despe de você. Resolvo olhar do outro lado. Revirá-la. Enviesá-la. Distorcê-la. Convoco aquele buraco.

Endereço àqueles muitos. Tiro uma linha torta. Atiro em meio ao nada.

Mas eles esperam ali. Espreitam ainda aqui.

Num certo turvar lúcido. Infatigável do tempo. O resto define um rosto. Um rosto é só uma linha. E alguns buracos.

Enterramos eles ali. Partimos. Alma lavada. Carne lavrada.

Só uma linha. E alguns buracos.

Um rosto.

um só.

um resto.

O rosto ainda não encontrou a sua face. Repito aqui essa frase maldita. Do poeta que enlouquece a letra endereçada e perdida. O olhar vazio perfura a folha seca a ser escrita. A escrita não é mais a lança. Nada se lança mais nesse mundo desabitado. Entre a fazenda de ontem e a praça de hoje: as ruas tomadas por fardas que levam corpos inexistentes. Aquele índio em cima da árvore mora na avenida maracanã. Aldeia em cimento armado. Estado armado.

Nancy repetindo um retrato autônomo, impressão de um sujeito sem expressão. Eu agarrando fotos velhas. Imprimindo digitais sem traços. Traçando rostos desaparecidos. Buscando não a expressão. Mas essa pressão que comprime as horas desse país. As histórias perdidas e apagadas. Quero falar da desaparecência. Quero desaparecer imprimindo inexpressivamente essa dor surda. Aquela fortaleza militar fechando a baía e abrindo o ano em que nasci. 1969. O rosto apagando-se. minha mãe. hoje morta. O filósofo repete letras também mortas. Impressas.

aqui.

Fica a interrogação se toda pintura, para mim toda imagem, talvez não seja figura e olhar. Olhar furado como letra transpassada. Imagem porque evanescente cedendo lugar à presença de tudo o que não passou. Passa agora. aqui. A semelhança nada tem que ver com o reconhecimento. Já não sou eu nem você. Ali naquela fazenda aonde trabalhava a família de minha mãe. Que desaparece na foto. Hoje já morta. aqui. Impressa. Nesse evanescer. Essa foto me olha. aqui. Já não vejo nada. Ela me olha. Estou desbotada. Desabotoada. Aberta. Essa lembrança.

Não.

De fato toda lembrança é um devir do presente. Estou inventando nessa profundidade do passado um sentido inexistente. A minha própria inexistência. A das mulheres que ouvi não dizerem. Seus corpos flutuam nesse deserto que me olha. Vermelho. Essa letra não é minha. Nem tua. aqui. Essa foto me olha.

 

 

 

 Estamos desaparecendo.

 

 

 

NOTA

Este texto é uma ficção teórica em torno da questão da violência (sobretudo contra a mulher e o corpo feminino), da imagem e da memória/esquecimento (sobretudo no Brasil). Ele utiliza trechos do filósofo Jean Luc Nancy e do poeta Antonin Artaud. Partes significativas sobre o esquecimento sedimentam-se nas leituras de Nietzsche e balizam essa memória. Sua aposta é simples, porém delirante: que as palavras ao afetarem o corpo propiciam outras rotas para os sofrimentos ou males físicos. Que toda escrita é produção de pensamento e de subjetividade e ao mesmo tempo.

 

Ana Paula Kiffer é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio. 

COMO CITAR:

KIFFER, Ana Paula. O DESAPARECIMENTO DAS COISAS: VIOLÊNCIA E IMAGEM. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. Disponível em http://108.167.188.225/~revis984/artigo/86/o-desaparecimento-das-coisas-violencia-e-imagem

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