Experimentos luiz guilherme barbosa

VOZ E ASSINATURA

Luiz Guilherme Barbosa © Todos os direitos reservados

 

 

Luiz Guilherme Barbosa   

 

– Suspende a voz

II

Agora a ideia era: escrever uma frase cujo sentido se alterasse ao ser escrita à máquina de escrever. Cada verso do poema foi digitado pelo seu autor, que em geral digitava à máquina pela primeira vez. De modo que a força com que a tecla imprime sobre o papel é o traço mais significativo, a meu ver, desse trabalho. Qual a força necessária para se escrever uma palavra? Quantas calorias os dedos gastam para fazer um poema? E se o esforço para escrever uma letra for descomunal, como ficam os romances? No mundo em que as telas sensíveis dos celulares não apresentam resistência ao toque dos dedos, não exigem a aderência da pele, escrever à máquina pode significar escrever pela primeira vez. Pode significar o Ato Zero. Teatro que nunca narra nada, mal chega ao primeiro ato, escrever pode ser a maneira mais difícil de não sair do lugar. Ou a maneira mais fácil de não ganhar dinheiro. Ou o modo mais inútil de falar.

III

Com uma etiquetadora em punho, escrever. Com a máquina nas mãos, escrever. Com a inabilidade de quem se acostumou às máquinas dóceis, ao computador, ao celular, escrever com a pressão da etiquetadora, forçar cada letra sobre a tira colorida, descolori-la letra a letra. Só se escreve na vigência da letra. E a musculatura deve trabalhar para que se escreva. Só se escreve para que se afirme: “Eu sou a coisa, coisamente”. Para que se afirme que, no fim de tudo: “Eu, etiqueta”. Para que a escrita não denuncie nada, a não ser a destruição das classificações, das categorias, das homenagens, dos preços, da tipografia. A destruição de tudo o que torna escrever possível. Porque só se escreve por tamanha impossibilidade.

IV

Quem fala tem culpa. Quem escreve tem culpa. O culpado do crime, ao enviar uma carta para a polícia, o suicida, ao deixar a carta na gaveta da escrivaninha, o pai, ao ensinar por carta a ética a seu filho, têm culpa. Mas o culpado do crime escreve procurando como sempre ocultar as pistas, abdicando da sua caligrafia, e esquecendo-se de que o ato de escrever e recortar dos jornais (que noticiam os seus crimes) as letras (que comunicam de viés a sua culpa) é a prova de sua existência, é o resto de sua singularidade, é a prova do real. Imaginando-se passar quase invisível como um fantasma, o culpado do crime ainda assim escreve, como quem esquece que em escrever em ato existe corpo, matéria, vida. Não há como escapar à letra. Pois é preciso escrever para comunicar um crime anterior ao crime cometido, um crime que comete quem fala. De nada adianta não confessar a culpa. O crime fala por si. Quem fala mata e muda a realidade. E, dessa vez, foi preciso, com letras e palavras dos jornais dos dias 16 e 17 de setembro de 2014, falar na voz do criminoso, pois assim falar restitui-se como um ato: a prova do real para quem se imagina quase morto.

V

Dessa vez a oficina se fez em homenagem a um parágrafo de Jacques Derrida, e basta: “Por definição, uma assinatura escrita implica a não-presença atual ou empírica do signatário. Mas, dir-se-ia, marca também e retém seu ter-sido presente num agora passado, que permanecerá um agora futuro, logo, um agora em geral, na forma transcendental da permanência. Esta permanência geral está de algum modo inscrita, pregada na pontualidade presente, sempre evidente e sempre singular, da forma de assinatura. É essa originalidade enigmática de qualquer rubrica.” (“Assinatura Acontecimento Contexto”, in: Limited Inc. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1991. p. 35.) 

VI

nada

 

___

As seis imagens que compõem “Voz e assinatura” foram elaboradas a partir da oficina de literatura (ou, mais especificamente, de escritura) Ato Zero, desenvolvida no Colégio Pedro II de Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, com alunos do ensino médio, pelo professor Luiz Guilherme. À exceção das imagens 1 e 6, compostas, respectivamente, por Luiz Guilherme e pela estudante Priscilla Faria, os demais textos foram produzidos coletivamente, frase a frase, verso a verso, e não há registro, devido ao modo de funcionamento próprio, móvel e aberto da oficina, de todas as pessoas que se envolveram, assim a sua autoria deve ser atribuída a Alunos do Colégio Pedro II de Realengo. As imagens foram todas feitas por Luiz Guilherme, e são acompanhadas por textos também do professor.

COMO CITAR 
BARBOSA, Luiz Guilherme. Voz e assinatura. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. Disponível em: http://108.167.188.225/~revis984/artigo/81/voz-e-assinatura

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