Ensaios DANIELA VERSIANI

PARA ENTENDER A GRANDE BELEZA

 

 

Daniela Versiani   

 

Urbem Romam quieta

 

Data di nascita: ignorata

Piccoli e grandi incendi:

390 a. C., Repubblica: Roma ristaurata

213 a. C., Repubblica: Roma ristaurata

027 d.C., Impero, sotto Tiberio: Roma ristaurata

64 d. C., Impero, sotto Nerone (e per dolo suo): Roma ristaurata

80 d. C., Impero, sotto Tito: Roma ristaurata

190 d. C., Impero, sotto Commodo: Roma ristaurata

283 d. C., Impero, sotto Carino: Roma ristaurata

1943, Luglio 19, sotto Mussolini: Roma bombardata

 

1943, Agosto 14

Roma da salvare

Roma città aperta 

1943 - 1944

Bombardamenti: 51

1944, giugno 4

Roma liberata

 

108 d. C. , sotto Traiano:

Fondazione Porta di Roma

1946, Maggio 23, 12h35

Partenza dalla Porta di Roma

La ragazza degli occhi blu

Il mai più si nasconde in America

Roma indifferente

 

1946, Maggio 24, 14h33

La ragazza degli occhi blu

Mare Nostrum e poi l’America

Roma silenziosa

 

Repúblicas e impérios               

Nascimentos e mortes               

Roma inalterada

 

Afluências e fugas

Passagens

Roma impassível

 

Roma e suas pestes

Fascistas, turistas e o enclave vaticano

Calígula, Nero e Mussolini

E um Bernini

E um Fellini

Roma e sua dulce lex das compensações

 

Roma ácida

Roma excessiva

Roma divertida

Sôfrega e tediosa

 

Roma e seu estranho hábito de sobreviver

Roma e seu estranho hábito de

- lânguida –

viver.

 

Roma nunca me quis.

 

Visitei Roma algumas vezes, e ela jamais se empenhou em me manter por lá.

Não me ofendi. Roma não quer ninguém.

Nativos, estrangeiros, artistas, poetas, crápulas, loucos e visionários, todos caminhamos sobre seu ventre, vasculhamos seus becos e dobras, acariciamos seus seios e outros monumentos. Comoção, desprezo, espanto ou ódio. Tudo isso somos capazes de lhe oferecer. E Roma permanece indiferente.

É impossível compreender a grande beleza de Roma sem dela saber algo fundamental: desde que nasceu, Roma está em decadência.

La grande bellezza, de Paolo Sorrentino. Cena 1. Fontana dell’Acqua Paola. No mármore entalhado, lê-se: “Roma ou morte”. Desde o mirante, sob o sol do meio-dia, um turista japonês fotografa Roma. E tomba, fulminado. Poderia ter escolhido atirar na própria boca. Poderia ter sido eu. Ou você. Todos nos arriscamos por Roma.

Roma é uma bela mulher. Antiga, despudorada, exagerada. Insensível e cínica.

Conheceu muitos homens. Conheceu muitas mulheres. Conheceu imperadores e poetas. Soldados e generais de repúblicas e impérios. Alguns a admiraram, outros a desprezaram. Outros ainda a traíram e machucaram. Roma não desprezou, odiou ou amou ninguém. 

Na noite em que estive em Roma, Roma passou por mim. Mas, é claro, com muito menos elegância que Fanny Ardant. Foi a primeira vez que a vi. E ela sofria com os calores do Ferragosto. Ou Feriae Augusti, como me corrigiu. Finas mechas de seus cabelos - que eram fartos, negros e cacheados - pegavam-se ao suor de sua testa, de suas faces.  Veios e mármore. Negro e dourado. A fenda entre seus seios exalava um perfume desagradavelmente doce. Como nota de fundo, um cheiro acre muito sutil.

Ao contrário de Ardant, Roma é verdadeiramente fatal: -“Ver Roma e então morrer”, diz o ditado. Ninguém sobrevive a Roma. Roma nos mata com um só toque.

Nenhuma homenagem a Roma é capaz de comovê-la. Roma é incomovível, se existisse tal palavra. Sobretudo, não lhe apetecem os clichês. Se não se impressionou com presentes de Bernini, Rossellini e Fellini, porque se impressionaria com dedicatórias que incluem em seu título a palavra amor? Ninguém que tenha como horizonte uma história com menos de 2.500 anos é capaz de compreender Roma. A América não compreende Roma.

E Roma não perdoa grandes ou pequenos artistas que usam seu nome em vão. Eu, desde sempre, os perdoo, em nome do conjunto da obra, e da minha própria pequenez. Roma, não. Roma não perdoa porque não perde tempo sentindo-se ofendida. Contudo, é preciso dizer, tampouco agradece os bem-sucedidos tributos, venham eles dos grandes ou dos pequenos.    

Ninguém entende Roma sem conhecer seu reverso: o Vaticano. Roma é profana. Mas o é, principalmente, porque resiste a esse enclave. Não há como caminhar por Roma sem topar com um corvo. E com um deus triste e solitário. O reverso de Roma é o sorriso piedoso, prestativo e sarcástico que, indefectível, surge de trás de um muro ou janela para se compadecer de cada uma de nossas pequenas misérias cotidianas.

Roma é mundana. É hedonista. Porque tem demasiado passado, vive em eterno presente. Porque anacrônica, Roma é contemporânea. Não porque moderna, atual, ou up to date (obsessões que não a comovem). Mas porque, a cada manhã, cobre suas duas faces de Jano com um lenço de seda e conclama todos os tempos para que venham servi-la no aqui e agora. Simples assim: o Foro Romano, Via Ápia, o Aqueduto, e também o MAXXI; o Coliseu, Cittavecchia, Palazzo Montecitoro, e também o Museu dell’Ara Pacis; o Palazzo Senatorio e o Parco della Musica Auditorium; a Ponte di Sant'Angelo e La Chiesa di Dio Padre Misericordioso. Tudo a um só tempo e lugar.

Roma sabe o risco que corre: transformar-se em belíssima natureza morta. Então abusa do poder cênico da opulência, da religião, dos rituais, relíquias e hierarquias. Para continuar viva, oferece sua arte cadavérica a aristocratas, burgueses, turistas e ralé, que olhamos pelo buraco da fechadura, ávidos por seus obscuros segredos. Roma se alimenta da nossa morbidez. Roma ri de si mesma e não tem medo do ridículo. E todos que de fato a amamos contribuímos com nosso quinhão de vulgaridade e decadência.

Viver em Roma é um modo de morrer. Roma não deixa espaço para qualquer desejo ou criatividade. Tudo está nela. Nada está fora dela. Vida, arte e história começam e terminam em Roma. Como os caminhos. É assim que, benévola, mata o artista e o liberta do suplício da criação. Já não somos capazes de ascender aos ombros marmóreos de Roma. Criar para quê? Se existem as ruas de calçadas gastas e os jardins de laranjeiras? A pedra esculpida e as carnes fellinianas? A grande beleza romana tem sim a maquiagem borrada, mas também a melancolia dos livros jamais escritos. A suprema realização de um artista, em Roma, é, lascivamente, dedicar-se tão somente a viver. 

Caminhei toda uma noite pelas ruas de Roma. Ao amanhecer, tudo o que havia aprendido é que o hábito cega. Parti de Roma com os mesmos olhos de meu amigo Jep Gambardella: entediados de beleza. Cansados dos velhos brocados, dos grandes espaços, do frio mármore. Vendo tudo sem já ver mais nada. E ainda assim, minha moeda jaz sob as águas da antiga fonte. Quem não morre em Roma, quer voltar a ela. Se o artista está destinado à sensibilidade, Roma está condenada à imortalidade. Indiferente, segue cumprindo a sentença.  Roma não é. Roma vive. 

 

ALUSÕES CINEMATOGRÁFICAS

Roma, città aperta (1945). Direção de Roberto Rossellini 

La dolce vita (1960). Direção de Federico Fellini 

Roma (1972): Direção de Federico Fellini 

Para Roma com Amor (2012). Direção de Woody Allen 

La grande bellezza (2013). Direção de Paolo Sorrentino 

 

Daniela Beccaccia Versiani é escritora e tradutora. Possui Graduação em Ciências Sociais pela USP, Comunicação Social pela Cásper Líbero (SP) e Doutorado em Letras pela PUC-Rio com estágio de Doutorado Fulbright/ Capes (2001) no Departamento de Antropologia da Rice University, em Houston. Professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, recebeu as bolsas Recém-doutor e Sênior/FAPERJ com apoio das quais desenvolveu o Projeto de Pesquisa de Pós-doutoramento 'Questões epistemológicas nos estudos literários e culturais: o campo não-hermenêutico e a alternativa dramática". Atualmente pesquisa os saberes literários em espaços multimidiáticos e formas alternativas de encenação do saber. Entre suas publicações, destacam-se o romance A matemática da formiga. Ou uma biografia (1999, 2008), Três contos ilusionistas (2008), Autoetnografias. Conceitos alternativos em construção (Finalista ao Prêmio Jabuti -2005), Manual de boas práticas de leitura (Finalista ao Prêmio Jabuti-2012 em coautoria) e Ler, comparar, pensar. Reflexões sobre literatura e cultura (2014).

 

Ilustração: Black & Gold Marble, s/a - Domínio Público

COMO CITAR
VERSIANI, Daniela. PARA ENTENDER A GRANDE BELEZA. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. ISSN: 2525-3972 Disponível em http://revistared.com.br/artigo/54/para-entender-a-grande-beleza.
  • DANIELA VERSIANI | 27.11.2015 16:27
    Como definir um ensaio multimidial?

LINKS INTERNOS

La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino
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Roma, città aperta, de Roberto Rossellini
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Para Roma com amor, de Woody Allen
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