Ensaios SIMONE GRECO

A NARRATIVA TEORIZANTE DE SILVIANO SANTIAGO

Simone Greco (PUC-Rio) 

 

Existe uma variedade de textos que podem ser compreendidos como parte das assim denominadas escritas de si: diários, memórias, confissões, cartas, enfim, textos em que se vislumbra a emergência do eu enunciador do discurso. Em outras palavras, a escrita de si revela a presença de um eu-que-diz, que se expõe. Partindo desse pressuposto, há como afirmar que textos literários em que há a presença de um narrador em primeira pessoa com marcas biográficas do autor empírico se aproximam do que se compreende como escrita de si?

Para fundamentar as questões que pretendo abordar no presente artigo, delimito meu enfoque à análise do livro O falso mentiroso, de Silviano Santiago. Neste texto, o narrador desreferencializa o discurso autobiográfico ao se propor a contar a história de uma vida. É preciso salientar, no entanto, que as referências biográficas do autor empírico no discurso literário se delineiam como delicadas marcas. São impressões que se aproximam da conceituação barthesiana de biografema. Em A câmara clara, de 1980, o teórico francês assim define seu neologismo:

(...)  gosto de certos traços biográficos que, na vida de um escritor, me encantam tanto quanto certas fotografias; chamei esses traços de “biografemas”; a Fotografia tem com a História a mesma relação que o biografema com a biografia. (BARTHES, 1980, p. 51)

Em seu livro Crítica cult, Eneida Maria de Souza afirma que a caracterização da biografia como biografema é uma tendência defendida por muitos autores, uma vez que esse conceito responde pela construção de uma imagem fragmentária do sujeito, tendo em vista que, na contemporaneidade, não se pensa ou se acredita mais “no estereótipo da totalidade e nem no relato de vida como registro de fidelidade e autocontrole” (SOUZA, 2002, p. 109). Para Barthes, o biografema relaciona-se à apreensão metonímica da totalidade sujeito aos pequenos gestos, detalhes, espaços vazios, percepções que contribuem para compreender ou dimensionar o sujeito biografado.

O princípio biografemático compreende que o sujeito que tenta falar de si não o consegue fazer de forma única e completa, pois a fragmentação do sujeito impossibilita sua identificação por meio de uma escrita sistemática, dividida em fases, preocupada em retratar a cronologia dos acontecimentos. Nesse sentido, como as referências biográficas de Santiago no enunciado ficcional em análise são fragmentos dispersos no enunciado (como menção à cidade onde nasceu), é plausível supor que se trata de encenações das subjetividades do escritor. Uma tentativa de levar o leitor a acreditar que as subjetividades descritas junto com as marcas, os biografemas, delineiam o escritor no texto ficcional.

A obra de Santiago parece se aproximar do conceito teórico barthesiano também por outra via: a via crítico-teórica. Percebe-se que há na enunciação de O falso mentiroso marcas referentes à biografia do autor empírico, marcas essas que parecem ter sido displicentemente lançadas na superfície textual para simular o desnudamento do eu-que-diz. Tais marcas, no entanto, revelam-se estratégias narrativas utilizadas para colocar em debate o processo enunciativo ao mesmo tempo em que o narrador tece a enunciação. Como afirma Eneida Maria de Souza, “preserva-se (...) o conceito de autor como ator no cenário discursivo, considerando-se o seu papel como aquele que ultrapassa os limites do texto e alcança o território biográfico, histórico e cultural”. (SOUZA, 2002, p. 110).

Nessa abordagem, as marcas biográficas aproximam-se do sentido barthesiano de biografema enquanto tentativas do narrador de se deixar apreender, permitir ao leitor captar o corpo que escreve. No entanto, essa aproximação delineia-se frágil e tênue, uma vez que tais marcas biográficas se configuram estratégias para a elaboração de narrativas teorizantes que propõem a reavaliação da categoria do narrador, além de contribuir para a constituição da subjetividade do eu ficcional.

A especificidade da escrita de O falso mentiroso se encontra no contínuo processo de relativização do conceito de ficção, que se evidencia quando se observa que o pacto ficcional é rompido a todo instante pelo narrador. Essa voz enunciadora do discurso provoca o leitor ao desfiar considerações teóricas sobre o seu papel de narrador, sobre a literatura e sobre o próprio ato de narrar. São textos que, sendo ao mesmo tempo ficcionais e autorreferenciais, questionam a ideia de referência ao problematizar a separação entre autor e obra no próprio enunciado ficcional.

O falso mentiroso encontra-se no campo limítrofe da ficção. Trata-se de um texto que problematiza a noção de literatura como representação da realidade não apenas porque é perceptível a contaminação da ficção pelos dados biográficos do autor empírico, mas também porque há a contaminação do discurso literário pelo discurso crítico-teórico do escritor. De acordo com o ensaísta Silviano Santiago:

(...) inserir o discurso autobiográfico no discurso ficcional significa relativizar o poder e os limites de ambos; e significa também admitir outras perspectivas de trabalho para o escritor e oferecer-lhe outras facetas de percepção do objeto literário, que se tornou diferenciado e híbrido. (SANTIAGO, 2008, p. 3) (2) 

Acrescento à citação transcrita que, além de admitir novas perspectivas para o escritor, o texto híbrido em análise possibilita uma ressignificação também do papel do estudioso de literatura. Além de se ver diante da reorganização do seu objeto de estudo – cuja narrativa questiona a autonomia do literário e desfaz discursos paradigmáticos –, o crítico encontra-se diante de outro dilema: como se inserir no amplo campo discursivo tecido por Silviano Santiago?

O escritor se propõe a desempenhar inúmeros papéis: de ficcionista a ensaísta, de autor a personagem-leitor, de crítico literário a teórico de seu próprio discurso ficcional. Como ler, portanto, essa obra em específico? É viável tecer um estudo crítico-teórico sem se deixar contaminar pelo discurso ensaísta do autor empírico? Acredito que adotar como linha investigativa tal distanciamento teórico invalidaria o estudo que almejo apresentar. Afinal, partindo do pressuposto de que ocorre a interpenetração do campo ficcional e teórico em O falso mentiroso, por que não viabilizar tal movimento no estudo teórico em processo no presente artigo?

Isso não significa afirmar que irei reinterpretar o que Silviano Santiago já teorizou sobre sua escrita, meu intento é evidenciar as ressignificações do objeto literário, adotando como proposta investigativa um posicionamento híbrido. Ou seja, irei permitir que a elaboração do presente estudo se contamine pelo discurso que Santiago erige sobre sua própria obra, mas não irei adotar como verdade única sua autorreferencialidade teórica.

A proposta analítica por mim adotada consiste em atuar como um leitor em construção, disposto a aceitar os convites teórico-discursivos propostos pelo narrador de O falso mentiroso e ora atuar como testemunha do enunciado, ora como participante da enunciação, ora como crítico distanciado da obra. A adoção do termo em construção é uma tentativa de delinear a minha percepção do papel do leitor como aquele que precisa exercitar certa mobilidade interpretativa. Ou seja, precisa estar disposto a exercer os inúmeros papéis que os desdobramentos do narrador dessa obra, bem como de outros textos literários, esperam que ele desempenhe.

A hipótese investigativa compreende que o discurso ficcional está contaminado pelo discurso teórico de Silviano Santiago; e que o seu discurso teórico aborda questões que são apresentadas – metateoricamente – na episteme ficcional de O falso mentiroso (bem como de muitas de suas obras, como Stella ManhattanHistórias mal contadas) por meio de um sujeito-narrador ondulante, que se alterna em diferentes papéis, adotando perspectivas diversificadas.

O que aqui se evidencia – a presença do escritor no texto literário, perceptível por meio de um narrador que teoriza sobre sua escrita3 – aproxima-se do conceito de metaficção. O termo foi introduzido no campo dos estudos literários por William H. Gass, no final dos anos sessenta do século XX. O termo metaficção – enquanto um processo autorreflexivo empreendido pela narrativa – afasta-se de um modelo de escrita que busca a representação do real e da realidade, como fizeram os discursos literários pertencentes à estética romântica-realista. A metaficção – ciente da impossibilidade de se apreender a tradução exata dos fatos e acontecimentos ocorridos – revela seu processo elaborativo e consegue, dessa forma, suspender a ilusão ficcional. De acordo com Gustavo Bernardo Krause (3): 

[A metaficção é] um fenômeno estético autorreferente através do qual a ficção duplica-se por dentro, falando de si mesma ou contendo a si mesma. Esse fenômeno aparece em especial naquelas obras artísticas que nos acostumamos a considerar as melhores – como um romance de Machado de Assis, um quadro de René Magritte. (KRAUSE, 2010, p. 9)

A literatura metaficcional de Silviano Santiago, ao apresentar a duplicação da ficção e do narrador, reflete inúmeras percepções, “embaralhando” o real, o biográfico, o ficcional e o teórico. Em ensaio de 2008,4 Silviano Santiago afirma que os dados autobiográficos percorrem todos os seus escritos e que estes traduzem: “o contato reflexivo da subjetividade criadora com os fatos da realidade que [o] condicionam e os da existência que [o] conformam”.

Afirma também que o discurso “propriamente confessional está ausente de [seus] escritos” e direciona o olhar do crítico para o processo da contaminação, definindo sua escrita como híbrida:

(...)  são os processos de hibridização do autobiográfico pelo ficcional, e viceversa, que contam. Ou melhor, são as margens em constante contaminação que se adiantam como lugar de trabalho do escritor e de resolução dos problemas da escrita criativa (5) (SANTIAGO, 2008, p. 10) 4, 5

Afirma Santiago, em suas entrevistas, que seus textos ficcionais são contaminados pelo tom autobiográfico (em oposição ao tom confessional). Nessa perspectiva, a aderência discursiva passa a funcionar como estratégia textual, empregada para formatar a identidade do sujeito-narrador, ora percebido como categoria ficcional, ora projetado no discurso como autor-implícito, ora sugerido como o desdobramento do autor empírico-ensaísta.(6)

A possibilidade analítica apresentada é viável, uma vez que se encontra pautada na separação entre vida e arte. Trata-se de uma proposta crítica que endossa o conceito de ficção enquanto fabulação. No entanto, há outra hipótese possível. A proposta que defendo é que esse texto ficcional (assim como outras obras do autor) ultrapassa a conceituação teórica apresentada por seu escritor, porque promove a aderência do eu ficcional,biográfico e ensaístico na enunciação narrativa, provocando um dilatamento do papel do narrador, o que contribui para tornar o eu-que-diz no discurso literário um eu plural.

Para legitimar a hipótese teórica até aqui apresentada, é preciso apreender de que forma o movimento em dobra da escrita em análise provoca a pluralidade do eu ficcional. Os desdobramentos discursivos – tanto no plano relacional estabelecido entre os personagens que figuram no enunciado narrativo quanto no descentramento doeu-que-diz – propiciam o esfacelamento da concepção de sujeito-narrador calcado nos pilares do individualismo.

O sujeito-narrador – em contínuo processo de definição – se apresenta multifacetado, fragmentado em “peças” articuláveis, moldadas por uma escrita dobradiça. A voz enunciadora de O falso mentiroso parece se constituir a partir de diversas identidades configuradas por meio dos processos ondulantes que a determinam. O narrador – por meio do efeito-dobradiça que provoca na escrita – ora se apropria do discurso biográfico e do discurso teórico (de seu escritor), ora parece negá-los, ora se restringe à ficcionalidade.

Em O falso mentiroso, o narrador – ao propor inúmeras versões para a história de seu nascimento e para seus primeiros dias de vida – fomenta inúmeras reinterpretações de sua biografia, tecendo emaranhados discursivos que se interligam e se rompem continuamente na enunciação. Adotando múltiplas perspectivas na elaboração de seu discurso, o narrador promove intermináveis possibilidades para a constituição do eu ficcional.

Seguindo essa linha de raciocínio, aproximamo-nos, novamente, da análise ensaística tecida por Silviano Santiago sobre sua própria obra e reiteramos a presença de alguns questionamentos teóricos em seu discurso literário, tais como: a separação entre vida e obra, a representação do real na literatura e a ficcionalização do escritor. De acordo com essa perspectiva, torna-se irrefutável a hipótese que verifica a contaminação do discurso literário pelo discurso crítico do escritor, o aspecto híbrido da narrativa.

 De acordo com o ensaísta Silviano Santiago, as obras cujos escritores vêm emoldurando sua identidade numa montagem textual “marcam uma época, um momento da história literária, em que a ficção do eu ocupa os mais diferentes escritores” (SANTIAGO, 2008, p. 18, grifo do autor). A obra selecionada para o presente artigo pertence a esse momento da história literária, pois problematizam o modelo de romance pertencente à tradição realista. O texto estudado se propõe a repensar a distância épica entre o eu-que-diz e os fatos apresentados, ressignificando o fazer literário e o papel do narrador na enunciação discursiva.

Uma análise plausível é definir o discurso literário em análise – diante das perspectivas analíticas desenvolvidas até agora – como pertencente ao campo da autoficção. Ou seja, trata-se de um texto que nem se configura como autobiográfico, nem como ficção, permanece em um estado de significação latente. Em outras palavras, um texto que propõe novos pactos e outras estratégias de leitura, rompendo com o horizonte de expectativas do leitor em relação aos gêneros preexistentes. No entanto, os processos ondulantes que delineiam o narrador provocam mais que a alternância entre os planos ficcional e biográfico, pois problematizam a concepção de ficção ao romperem as barreiras que a encerram em si mesma.

Diante dessa constatação, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de se refletir sobre a aplicabilidade de termos institucionalizados pela crítica literária para definir textos que apresentam, em seu processo enunciativo, sujeitos-narradores em construção, que se aproximam de definições teóricas distintas. Uma leitura mais superficial vislumbra esse sujeito-narrador, em primeira pessoa, apenas como a categoria ficcional que elabora a enunciação. No entanto, realizando uma leitura mais atenta, observa-se que esse narrador dúbio, em constante desdobramento, aproxima-se da definição teórica de autor implícito proposta por Wayne Booth. Prosseguindo com a análise de O falso mentiroso, verifica-se a hipótese desse narrador atuar como projeção do autor empírico-ensaísta, misturando o real e o ficcional.

As probabilidades – categoria ficcional, autor implícito, autor empírico ficcionalizado – podem parecer excludentes à primeira vista, mas, de fato, me parecem que são complementares. São essas “partes” teóricas que irão contribuir para se obter o “todo”, ou seja, a definição ou a conceituação teórica que abrace a ondulação discursiva do narrador da obra aqui estudada. Uma obra que se insere em um modelo narrativo distinto e singular, que me obriga a formular uma concepção crítico-analítica que caracterize teoricamente a especificidade dessa narrativa. Isso se torna necessário diante da inviabilidade de se adotar nomenclaturas já existentes para defini-la.

O falso mentiroso, de acordo com a perspectiva teórica desenvolvida, discute metaficcionalmente questões como autobiografia e autoficção. O narrador-personagem questiona, de forma radical, a confiabilidade da narrativa autobiográfica ao demonstrar – por meio de uma escrita pouco confiável – como é risível a valorização excessiva do depoimento do eu. O romance questiona o tom confessional predominante na estética contemporânea, a compulsão por retratar o real ou os fatos o mais próximo possível da verdade. O escritor rompe com o modelo de narrativa pautado na fala do eu, subverte a concepção de que o documental legitima e valida a narrativa ficcional, redefinindo o espaço da ficção ao trazer para o campo literário questões até então restritas ao discurso crítico-teórico.

O leitor de O falso mentiroso é convidado a se despir de qualquer formulação prévia do que entende por “narrar uma vida”, é convidado a abrir mão de conceituações teóricas sobre o que é ficção, é conduzido a repensar o quão frágil pode ser o relato fincado nos pilares memorialísticos. Samuel – o narrador de O falso mentiroso – apresenta inúmeras versões para seu nascimento. O eu-que-diz se propõe a contar a sua história, a sua memória, as lembranças de seu nascimento. As inúmeras versões apresentadas pelo narrador se organizam a partir de eixos dicotômicos: a rejeição (morte)/ a adoção (nascimento); o pai (falso)/ a mãe (verdadeira) ou o inverso. Cada versão dada é substituída por uma nova, com outros detalhes, envolvendo novos e inusitados personagens, muitas são as verdades ou as mentiras contadas, o que leva o leitor a se desencontrar no espaço enunciativo, tecido por um (falso) mentiroso.

A capa do livro (7) – pelo pacto proposto – induz o leitor a acreditar que se trata de uma biografia: apresenta como subtítulo a palavra Memória e uma fotografia do autor quando menino. Na contracapa, subvertendo as referências extraliterárias da capa, há a seguinte definição:

O falso mentirosoparadoxo atribuído a Euclides de Mileto (século IV a.C.), cuja forma mais simples é: se alguém afirma “eu minto”, e o que diz é verdade, a afirmação é falsa; e se o que diz é falso, a afirmação é verdadeira e, por isso, novamente falsa etc. (Enciclopédia Mirador)

Os indícios contidos na capa do livro apontam para um texto de memórias ou uma biografia, no entanto, ao iniciar sua leitura, o leitor se depara com um enigma textual: já o primeiro parágrafo do livro deixa transparecer a ambiguidade da narrativa. Afirma o eu-que-diz:

Não tive mãe. Não me lembro da cara dela. Não conheci meu pai. Também não me lembro da cara dele. Não me mostraram foto dos dois. Não sei o nome de cada um. Ninguém quis me descrevê-los com palavras. Também não pedi a ninguém que me dissesse como eram. Adivinho. Posso estar mentindo. Posso estar dizendo a verdade.(SANTIAGO, 2004, p. 9)

Adivinhar não significa recuperar o vivido. O pacto autobiográfico é desconstruído logo no início da enunciação pelo sujeito que fala e um novo pacto é estabelecido de imediato. O narrador pode estar mentindo ou não, caberá ao leitor aceitar a sua proposta ou recusá-la. O narrador afirma que deseja narrar sua biografia, mas nenhum dado ou informação é confiável. O discurso do narrador parece esvaziar a importância da ficção, parece afirmar que somente o tom confessional é válido. E ironicamente afirma também a impossibilidade discursiva de uma escrita pautada na verdade autobiográfica.

O narrador simula elaborar uma escrita biográfica, que tenha um tom confessional, mas à medida que ensaia escrever essa escrita afasta-se de seu objetivo, porque se depara com um dilema ficcional: a impossibilidade de se registrar por meio da linguagem a verdade. Nesse sentido, pode-se afirmar que a proposta do romance O falso mentiroso se configura ambígua e paradoxal, pois, ao mesmo tempo em que o discurso literário parece ser elaborado com o intento de se assemelhar a um discurso autobiográfico, a enunciação narrativa promove o desmonte e a negação do conceito de autobiografia, proposto por Lejeune, como se procurasse determinar: nenhuma escrita de si é possível, pois o real (ou a verdade) é indizível.

Em O falso mentiroso, a narrativa problematiza de forma emblemática a questão paradoxal que permeia o discurso ficcional: literatura é fabulação ou nas palavras do escritor: “a ficção é, antes de mais nada, enquanto configuração ou definição, uma mentira, uma invenção, uma fabulação” (SANTIAGO, 2004). A antinomia verdade-falsidade desencadeada no título encontra-se presente em todo o discurso literário, suscitando duplicidades em torno do narrador e do fato narrado, desconstruindo a noção de narrativa, compreendida como as ações e fatosconfiáveis contados por um narrador.

Outro aspecto que vale a pena ressaltar em O falso mentiroso é que a voz enunciadora do discurso teoriza, através do contato direto estabelecido com o leitor, sobre o fazer literário. Um fazer literário cujo narrador do discurso é um impostor: “impostor confesso que não tem medo da comicidade” (SANTIAGO, 2004, p. 218). Trata-se de uma falsa autobiografia, formulada por um personagem fictício, cuja enunciação apresenta indícios que apontam para a ficcionalização da bios do escritor empírico no discurso literário.

Nesse texto literário, o narrador subverte os pactos referenciais propostos por Lejeune para definir autobiografia, ao mesmo tempo em que questiona o que se convencionou definir como ficção. Philippe Lejeune afirma que a diferença entre ficção e autobiografia não é a relação que existe entre os acontecimentos da vida e sua transcrição no texto, mas o pacto implícito ou explícito que o autor estabelece com o leitor, através de vários indicadores presentes na publicação do texto, que determinam seu modo de leitura. Ou seja, independente dos recursos estilísticos utilizados, o que torna um texto ficção ou autobiografia é se o pacto estabelecido com o leitor é ficcional ou referencial.

No livro em análise, a escrita de Silviano Santiago se apropria da conceituação proposta por Lejeune para promover, no enunciado discursivo, a sobreposição teórica entre os pactos ficcional e referencial. A proposta discursiva do narrador de O falso mentiroso consiste em desconstruir o pacto referencial (proposto na capa) e ressignificar o pacto ficcional ao se apropriar de dados biográficos do escritor empírico. O sujeito enunciador do discurso delimita novas regras em sua narrativa, escolhendo um “leitor ideal”, capaz de preencher as lacunas do seu texto. O texto exige um leitor que compreenda sua proposta picaresca,8 um leitor disposto a aceitar a 8 A proposta picaresca do romance remete à novela picaresca espanhola, em voga entre os séculos XVII e XVIII. Esse gênero discursivo apresenta como categoria narrativa central o protagonista, um pícaro por excelência. O gênero picaresco pode ser compreendido como relatos autobiográficos com narradores autodiegéticos que retratam as diversas experiências do pícaro com diferentes patrões. O enredo se desenvolve de forma a tentar explicar o estado de desonra em que o protagonista se encontra, narra desde o período da infância (a genealogia nada ideal) até a sua condição atual, escrevendo suas memórias. subversão dos pactos autobiográficos e ficcionais, proposta por um narrador que se assemelha à figura do pícaro. (9)  

Conforme declarou em entrevista, Santiago escreve O falso mentiroso inspirado nesse gênero discursivo:

Acho a opção pela leitura que fiz da novela picaresca espanhola mais correta e, por isso, endosso a tese do “viés”. Enquanto estava escrevendo o romance, reli com certo prazer e aprendizado aquela literatura. Queria que os acontecimentos dramatizados no romance fossem vinculados por uma escrita light, atrevida, descarada, descompromissada com os andaimes da verossimilhança. (SANTIAGO apud COELHO, 2011, p. 150)

Afirma que adotou uma linguagem chula, em consonância com o gênero picaresco, e que teve de se “preparar para enfrentar certa desenvoltura e nenhum preconceito” (SANTIAGO apud COELHO, 2011, p. 150) em relação à escrita que estava se propondo a elaborar. Assim também o leitor é intimado a se preparar. Logo nas primeiras linhas do romance, o narrador estabelece uma proposta ao leitor, que deverá adotar o papel que a narrativa lhe impõe para conseguir dar prosseguimento à leitura. O leitor-modelo dessa narrativa é aquele que concorda em seguir o conjunto de instruções (ECO, 1994, p. 17) que lhe é imposto de imediato. Ao acatar a proposta lúdica que lhe é apresentada, o leitor sabe que os caminhos a trilhar não são pretensamente seguros como os de uma narrativa ficcional que se vale da tradição realista, que apresenta um narrador confiável. Trata-se, na verdade, de um lúdico jogo narrativo.

O texto apresenta inúmeras versões, todas escritas em primeira pessoa, sobre o nascimento de Samuel, o protagonista. Na primeira versão, o narrador relembra o momento em que nasceu, descreve as circunstâncias que o fizeram ser levado à casa de seus pais adotivos (os falsos), faz suposições acerca da identidade e das características de sua mãe (a verdadeira). Entre esporádicas crises de coluna, refere-se a sua recusa quando criança de mastigar pedaços sólidos de comida, mesmo os menores. Alimentava-se apenas com gigantescas mamadeiras com refeições processadas, trituradas pelo liquidificador. Precisava ser “desmamadeirado”, mordia apenas os braços da priminha Dorothy.

Ainda na primeira versão proposta pelo narrador, são apresentadas ao leitor as explicitações que o próprio Samuel formula para justificar a dor na coluna que o aflige. Afirma ele: “Papai (o falso) é o superego que carrego às costas, desde menino (...). Fui levado da breca. A cabeça achatada, o pescoço comprimido e a corcunda vêm de menino” (SANTIAGO, 2004, p. 13).

Ao leitor, não é permitido nenhum tipo de inferência, a análise já foi preparada pelo sujeito enunciador do discurso. O pacto extraliterário estabelecido com o leitor na capa indicava se tratar de um livro de memórias, de que se tratava de resgatar o vivido. Entretanto, o leitor não pode esquecer de que o narrador se autoproclama um falso mentiroso. Observa-se a oscilação da voz narrativa. Esta não se propõe apenas a contar inúmeras versões sobre seu nascimento ou a história do surgimento e da fabricação da camisinha-de-vênus pelo seu pai, o falso. Há, na enunciação narrativa, a presença de um personagem-autor, que é construído discursivamente ao longo do texto, de forma subentendida. Nota-se tal projeção na referência ao menino-corcunda e nas passagens: “(Posso garantir que foi a primeira lição de estética que recebi)” (SANTIAGO, 2004, p. 74); “Já tive, não tenho mais, uma opinião formada sobre Mário, o mentor, que vocês ainda não conhecem. Vão conhecer” (SANTIAGO, 2004, p. 75); “Raríssimas vezes abri uma nesga no capítulo anterior para que Gabriel [Falópio] aflorasse e respirasse os ares marítimos de Copacabana e se tornasse íntimo do leitor” (SANTIAGO, 2004, p. 91); “Nos poucos segundos em que Gabriel entreteve o leitor, o fez de maneira culposa e ressabiada. Envergonhada”. (SANTIAGO, 2004, p. 91).

Nota-se também a presença do personagem-autor enquanto construção discursiva na seguinte passagem:

(...)  hoje penso que ela só queria brincar de médico comigo. Ela se fazia de boneca. Eu, de glutão. A mordida. O grito. A marca rubi. Comê-la de mentirinha até chegar ao âmago – a alma inocente da priminha Dorothy. (...)  A priminha foi minha primeira masoca e eu, seu primeiro sadoca. (SANTIAGO, 2004, p. 20)

O narrador justifica, interpreta a si mesmo na enunciação discursiva. Suas mordidas são explicadas pela fala ambígua do sujeito que acredita possuir a alma de Dorothy ao marcar sua pele com seus dentes. Analisa seu gesto. Mais adiante, insiste nas explicações para seu comportamento e apresenta como, no futuro, tais mordidas influenciarão a vida da prima.

As justificativas são detalhadas, a narrativa é preenchida por reinterpretações contínuas, que tentam pormenorizar todos os fatos, gestos, deslizes, traumas da personagem principal. São muitos os exemplos, afirma: “Até hoje. Tenho pavor de colher entrando na minha boca” (SANTIAGO, 2004, p. 22). Logo em seguida, justifica seu pavor sobre colheres, reafirma o que já havia sido dito, explica novamente, preenche, não há espaço para o leitor interpretar. Todas as respostas são dadas, todos os comportamentos são justificados detalhadamente.

A narrativa interliga as ações e os comentários, retornando ao mesmo ponto do início: a ausência da mãe verdadeira como a causa, a razão de todos os seus problemas e traumas, inclusive o de não gostar de leite. O primeiro capítulo termina com o retorno às primeiras indagações: “o que tudo isso tem a ver com torcicolo (grifo do autor) na idade madura?” (SANTIAGO, 2004, p. 25). A tentativa de escrever seus registros memorialísticos é um jogo que o narrador estabelece com o leitor, um jogo cujo processo elaborativo se organiza de uma forma pouco convencional, com a qual o leitor não está muito acostumado. O ensaísta Silviano Santiago explica, em entrevista, o recurso que empregou:

Daí o recurso narrativo à correção (ou a repetição em diferença), de que me vali o tempo todo no livro. A correção corrige o que foi dito anteriormente, vira um outro texto que, por sua vez, será corrigido mais tarde, e assim até a palavra fim. (SANTIAGO apud COELHO, 2011, p. 147).

Talvez, o leitor demore a perceber o recurso empregado e se surpreenda a cada nova versão, acatar essa proposta de leitura e aceitar o desafio de decifrá-la é o papel que o escritor espera de seu leitor: novas formas de escrever demandam novas estratégias de leitura.

No terceiro capítulo, o narrador apresenta sua segunda versão. “Pode ser verdade” ou não, ele já nos avisara antecipadamente. As histórias, os detalhes que envolvem seu nascimento modificam-se, são outras as lembranças contadas. Esvazia-se a narrativa anterior. A primeira versão não é confiável, em qual o leitor irá acreditar? O narrador-personagem está certo de que os seus problemas de saúde são provocados pela incerteza em relação a sua origem, porque não conhece sua verdadeira história. Órfão, Samuel oferece ao leitor cinco versões para seu nascimento e adoção.

Na primeira, como vimos, Donana, sua mãe adotiva (que ele chama de “mãe falsa”) era estéril e não conseguia ser feliz sem um filho. O “pai falso”, doutor Eucanãa, arma um esquema para agradá-la: suborna uma enfermeira para que ela roube um bebê qualquer. Assim, ilicitamente, Samuel é adotado. Na segunda versão, anos depois, a enfermeira aparece e dá outra explicação para sua origem. Diz que a mãe verdadeira de Samuel era amante de Eucanãa, seu “pai falso”. Eucanãa decidiu criar o filho bastardo, mas deu a Donana a versão do sequestro de um bebê desconhecido. Anos depois, no enterro do pai adotivo, Samuel vê uma emocionada senhora de cabelos brancos. Apelida-a de Senhora X e imagina que pode ser ela a tal amante. Portanto, sua mãe verdadeira.

Na terceira versão, uma costureira, amiga de Donana, dá uma explicação fantástica para o seu nascimento. Diz que Donana sonhava tanto em ter um filho que decidiu forjar a gravidez. Amarrou uma almofada de renda na barriga, fingia ter enjoos e desejos. A farsa foi tão perfeita, a vontade de dar à luz tão intensa, que Samuel nasceu da almofada. Na quarta versão, a mãe verdadeira de Samuel seria Teresa, secretária do consultório médico de seu pai adotivo ou secretária de fachada de seu falso escritório de advocacia. Ele sabe que os dois tiveram um caso, o que reforça esta versão. Acrescentando novos dados a sua origem, em cada nova versão, Samuel problematiza – de forma picaresca – a ideia de autobiografia e, ao mesmo tempo, ironiza com bom humor as narrativas memorialísticas.

O único ponto de contato entre tantas versões é que, em paralelo às histórias sobre seu nascimento, sua origem, o narrador nos conta sobre sua relação com o pai. Dr. Eucanaã finge trabalhar como advogado para a família, mas, na verdade, é um industrial, um negociante da indústria farmacêutica. É apresentado pelo narrador ora como seu pai adotivo (falso) e ora como seu pai verdadeiro, que trai a mulher Donana com inúmeras amantes. A figura do pai, em todas as versões biográficas apresentadas, surge sempre duplicada, desdobrada em falso-verdadeiro.

Diante de tantas versões, como confiar nessa voz que não se revela por completo? O eu que fala subverte os conceitos teóricos acerca de autobiografia e memória ao ampliar o debate entre autoria e representação. Há passagens no livro em que o leitor tem a sensação de que há a projeção do escritor empírico no texto narrativo, principalmente quando o narrador se propõe a analisar a enunciação, apontando para o leitor os recursos que empregou e qual sua intenção ao fazê-lo. Por exemplo, inicia o quinto capítulo dessa forma:

Falha nossa.

Foi intensa a minha empolgação durante a feitura do retrato do papai. Tão intensa, que acabei negligenciando a figura do misterioso fidalgo italiano. Deixei-o recluso nos camarins do capítulo anterior. (SANTIAGO, 2004, p. 89)

Nada disso se encontra escrito no capítulo anterior. Ah! Se tivesse tido a ideia de alguns jogos anacrônicosFalha minha! (SANTIAGO, 2004, p. 90)

A elaboração de um discurso em que o narrador faz referência ao processo de construção da escrita concomitante à enunciação narrativa pode levar o leitor a acreditar que se está diante de um texto em que a voz que fala é o desdobramento da voz autoral. Percebe-se a intenção do sujeito enunciador do discurso de dilatar a tensão entre o real e o ficcional, quando, na quinta versão, o narrador nos explica que Samuel teria nascido na cidade de Formiga, Minas Gerais:

Já que voltei a tocar nas circunstâncias do meu nascimento, adianto. Corre ainda uma quinta versão sobre elas. Teria nascido em Formiga, cidade do interior de Minas Gerais. No dia 29 de setembro de 1936. Filho legítimo de Sebastião Salgado e Noêmia Farnese Santiago. A versão é tão inverossímil, que nunca quis explorá-la. Consistente só a data do nascimento. Cola-se à que foi declarada em cartório carioca pelo doutor Eucanaã e Donana.(SANTIAGO, 2004, p. 180)

Tal versão induz o leitor a acreditar que uma das inúmeras hipóteses sobre o nascimento de Samuel possa, sim, representar o real. Ou seja, que, diluída na verborragia do eu-que-diz, há informações verídicas que fazem parte da biografia do autor empírico. A dobra do narrador conduz o leitor a visualizar na superfície do texto a ficcionalização da bios do escritor empírico e, devido a essa característica, o eu-que-diz aproxima-se da concepção de autor implícito, proposto por Booth. Em síntese, este teórico considera que autor implícito é como se fosse a imagem do autor criada pela escrita. Por outro lado, o recurso empregado direciona nossa análise para a projeção de um personagem-autor que se molda no texto discursivo como um pretenso duplo do autor empírico.

Samuel se forma em artes plásticas, transforma-se em excelente falsificador. Revela-se um mentiroso astuto, capaz de enriquecer com as belíssimas cópias que faz de obras de arte famosas. Em outra perspectiva, esse “duplo” do autor-empírico aproxima-se da concepção de autor-modelo de Eco, configurando-se uma estratégia narrativa, um conjunto de instruções que são dadas ao leitor, no processo de leitura: “porque autor-modelo e o leitor-modelo são entidades que se tornam claras uma para a outra somente no processo da leitura, de modo que uma cria a outra” (ECO, 1994, p. 30). São diversas possibilidades de estratégias narrativas ou desdobramentos do sujeito enunciador do discurso, o que coaduna com o pensamento de Wolfgang Iser que afirma que o texto apresenta orientações de leitura. Essa se configura em ação comandada pelo texto com a colaboração do leitor.

Há, portanto, um rebatimento especular nos desdobramentos subtendidos na enunciação do sujeito que fala. Oeu-que-diz desdobra-se sobre si mesmo, sobre seu discurso, preenche e esvazia sua narrativa repetidas vezes. O discurso elaborado subverte a concepção de que um texto de memórias é o resgate de lembranças – ficcionais ou verídicas – vivenciadas pelo eu-que-diz, uma vez que o pacto referencial ou biográfico não está explicitamente delineado. Em outras palavras, O falso mentiroso promove a reflexão teórica sobre memória e autobiografia, ao nos conduzir por um emaranhado discursivo que se constrói e se esvazia repetidas vezes ao longo das páginas do livro.

Após apresentar as inúmeras versões para o seu nascimento, o narrador elabora um breve capítulo entre parênteses – assinalado graficamente antes da primeira e após a última palavra escrita – para teorizar sobre a estrutura narrativa do pretenso texto memorialístico. Esse capítulo (o 11º do livro) inicia com o narrador reconhecendo – de forma debochada – o esforço empreendido pelo leitor:

Você chegou até aqui. Calculo. A duras penas. Parabéns. Imagino. Suas pernas estão trôpegas e sinalizam cansaço. Pergunto-me. Será que seus olhos compreendem as segundas e terceiras intenções que se escancaram a cada página das memórias? Duvido. (SANTIAGO, 2004, p. 174)

O narrador se declara satisfeito com o livro de memórias que está redigindo, porque, segundo ele, conseguiu “elucidar algumas poucas coisas sobre personalidades raras” (SANTIAGO, 2004, p. 174), talvez se referindo ao narrador-personagem de seu romance e sua ânsia em saber sobre as circunstâncias de seu nascimento. Continua o capítulo afirmando que procurou explicitar detalhes de sua personalidade, a qual considera “inviolável”; no entanto, diz que enquanto “cofre de valores em tempos de mercado negro” somente alguns conseguem acessá-lo e confirma: “o conteúdo do cofre não fica também a salvo de psicanalistas, adivinhos, bruxas e feiticeiras. De críticos literários”.

O capítulo pode ser entendido como um momento reflexivo em que o narrador pondera sobre o leitor de seu texto: tanto o leitor comum (que se esforçou para chegar quase ao final do livro) como o crítico literário. Em relação ao primeiro, adota um tom jocoso, provocativo, meio maldoso e, quanto ao segundo, parece se importar um pouco mais: falsas mentiras contadas por um falso mentiroso? O que se observa é que o narrador metateoriza sobre o processo enunciativo que elabora. Primeiro, reconhece a dificuldade enfrentada pelo leitor diante de seu texto:

É penoso – sei de experiência própria – caminhar inutilmente por tantas páginas impressas e por tão longo tempo.(...)  Neste livro. Paisagens linguísticas comoventes foram montadas contra o pano de fundo de requintados cenários de musical na Broadway. Ou contra o pano de fundo de telões improvisados em teatro de revista da praça Tiradentes. A linguagem figurada se descortina pela janela do trem em que viajamos. (SANTIAGO, 2004, p. 176)

O trem ficcional no qual viajamos junto com o narrador se revela um espaço propício para a reflexão teórica, apresenta uma narrativa que se constrói sobre pilares trôpegos, pouco confiáveis, que se afastam do modelo paradigmático do texto memorialístico, pautado pelo resgate dos fatos vividos pelo sujeito:

Volto às primeiras linhas deste longo parêntese e à estrutura básica das memórias. Se desconfio de mim, como servir de exemplo para o outro? Se me constituo de cópias, como me apresentar como modelo? Se não sou original, serei modelo de araque? Como fazer um modelo de araque ficar de pé por tantas páginas?, eis a questão das questões.” (SANTIAGO, 2004, p. 176)

No capítulo, o narrador explicita a fragilidade de um discurso erigido a partir da reminiscência de um sujeito, evidencia que a escrita de si, o relato de uma experiência pessoal suscita incertezas quanto a sua confiabilidade. Finaliza o breve parêntese afirmando categórico: “A literatura significa tanto quanto as interjeições em estado de dicionário. Tome a frase como bula de remédio. É uma falsa mentira. Tão profunda quanto a verdade”. (SANTIAGO, 2004, p. 177). Novamente, o narrador estabelece o jogo lúdico verdadeiro-falso com o leitor, provocando-o, instigando-o a enveredar por um espaço ficcional que não se reduz a relatar a história de vida de um narrador. As palavras empregadas estabelecem um jogo de meias verdades ou de meias mentiras, que não cabe ao leitor tentar decifrar. O impasse proposto por essa escrita é o que a torna mais sedutora, pois sua organização entre fronteiras discursivas frágeis e maleáveis cria um campo propício para a experimentação ficcional e metateórica.

O falso mentiroso apresenta inúmeras versões para a origem do narrador-personagem, todas podem ser verdadeiras e todas podem ser falsas. As inúmeras possibilidades tanto podem se referir à busca da verdade do narrador por sua história pessoal como podem ter outra explicação (também apresentada pelo narrador):

Não sei por que nestas memórias me expresso pela primeira pessoa do singular. E não pela primeira do plural. Deve haver um eu dominante na minha personalidade. Quando escrevo. Ele mastiga e massacra os embriões mais fracos, que vivem em comum como nós dentro de mim. (SANTIAGO, 2004, p. 136)

O narrador esgota qualquer possibilidade interpretativa, o discurso narrativo organiza-se de tal forma que as lacunas são preenchidas por inúmeras hipóteses plausíveis e (in)verossímeis. São catorze capítulos sem títulos ou marcação numérica em que são desfiados temas de toda natureza.

O narrador se diverte em especificar os atributos escatológicos de Zé Macaco, ironiza com um quê de crueldade a religiosidade de Donana, sua mãe (a falsa ou a verdadeira), apresenta com riqueza de detalhes a teoria de Malthus, a invenção de Falópio, a implantação da fábrica de camisinha-devênus no Brasil, seu auge e sua falência, após o surgimento da penicilina. Além disso, o narrador nos apresenta a terrível personalidade de seu pai (doutor Eucanaã), o falso ou o verdadeiro: ora embusteiro, ora empresário de sucesso, amante incansável e marido dedicado. O narrador se apresenta como um homem dedicado à esposa surda, Esmeralda, artista falsário da obra do pintor Oswaldo Goeldi.

São muitas as histórias, os fios condutores da narrativa, mas o que se observa, nas entrelinhas, são questões do campo crítico-teórico diluídas em meio ao processo enunciativo,10 questões que são tecidas – de forma jocosa e picaresca – por um narrador lúdico, desdobrado no processo enunciativo.

NOTAS

1. No link <http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=5659> (acesso em: 1/9/2015), é possível acessar a Dissertação de Mestrado de Sandra Coelho Franco (PUC-SP), que analisa o biografema como um possível elemento unitário e básico da biografia tradicional na obra literária e epistolar de Monteiro Lobato. No primeiro capítulo, a autora trata do conceito de biografema e biodiagramação a partir da concepção de Roland Barthes e, no segundo capítulo, procura aprofundar o conceito de leitura biografemática e de suas relações analógicas na prática textual.

2. O ensaio está disponível em:

<http://www.uff.br/revistagragoata/revistas/gragoata31web.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2015.

3. No artigo “Escritas do eu: crítica e ficção em Silviano Santiago”, Roberto Carlos Ribeiro escreve sobre o entrelaçamento entre crítica e ficção na obra de Silviano Santiago. Texto disponível em: <http://www.ufjf.br/darandina/files/2010/02/artigo14a.pdf>.

4. O link <http://www.uff.br/revistagragoata/revistas/gragoata31web.pdf> direciona o leitor para o número 31 da Revista Gragoatá (2011), publicação eletrônica da UFF. Nesse exemplar, é possível acessar, na íntegra, o ensaio “Meditação sobre o ofício de criar”.

5. Disponível no mesmo link da nota 4.

6. Para melhor entendimento das múltiplas aderências que se observa no texto literário de Santiago, acessar o link <https://www.youtube.com/watch?v=aLH5Ch2VXJE> para assistir à entrevista concedida por Silviano Santiago a Helton Gonçalves de Souza, para o programa Vereda Literária, gravado em 3 de agosto de 2001. Nessa entrevista, Santiago faz uma retrospectiva condensada de sua biografia, desde sua saída de Formiga até seu trabalho como professor em Universidades americanas, bem como comenta sobre sua produção acadêmica e literária. Inicialmente, o projeto Vereda Literária se constituía em programas gravados e levados ao ar semanalmente pela TV Top Cultura de Ouro Preto, TV Cultura de São Paulo (com retransmissão pela Rede Minas) e TV Uni-BH (em Belo Horizonte). O projeto foi interrompido por um longo período e retomado, em caráter permanente, devido à riqueza de possibilidades que os novos meios de informação e comunicação possibilitam. No link: <http://www.veredaliterariabh.blogspot.com.br/>, é possível acessar todo o arquivo disponibilizado pelos idealizadores do projeto.

7. É possível visualizar a capa do livro O falso mentiroso no link: <http://www.rocco.com.br/ index.php/livro?cod=833>. Acesso em: 20 ago. 2015.

8. A proposta picaresca do romance remete à novela picaresca espanhola, em voga entre os séculos XVII e XVIII. Esse gênero discursivo apresenta como categoria narrativa central o protagonista, um pícaro por excelência. O gênero picaresco pode ser compreendido como relatos autobiográficos com narradores autodiegéticos que retratam as diversas experiências do pícaro com diferentes patrões. O enredo se desenvolve de forma a tentar explicar o estado de desonra em que o protagonista se encontra, narra desde o período da infância (a genealogia nada ideal) até a sua condição atual, escrevendo suas memórias.

9. O pícaro, geralmente, aparecia no texto literário como uma personagem de condição social humilde que “abandonado por seus genitores (...) fica entregue à sua própria sorte, o que o obriga a se valer de meios desonestos, como pequenos roubos para sobreviver”. Disponível em: <http://www.edtl.com.pt>. Acesso em: 9 set. 2013.

10. Tais questões são também observadas no texto "Jogos de meias verdades", de Wander Melo Miranda, disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0805200513.htm>. Acesso em: 20 ago. 2015.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

______. A morte do autor. In: _____. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Trad. Whayne C. Booth. Lisboa: Arcádia, 1980. v. 1.

DIAS, Ana Crélia Penha. Retratos dispersos: artimanhas dos textos de Silviano Santiago. 2008. Tese (Doutorado em Letras Vernáculas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: <http:// www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/DiasACP.pdf>. Acesso em: 20 set. 2013.

ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

_____. Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 2002.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: _____. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

______. O ato de leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Ed. 34, 1996.

KRAUSE, Gustavo Bernardo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Poétique: Revue de théorie et d’analyse littéraire, Paris: Seuil, n. 14, 1973.

______. Le pacte autobiographique (bis). Poétique: Revue de théorie et d’analyse littéraire, Paris: Seuil, n. 56, 1983.

MIRANDA, Wander Melo. Jogos de meias verdades. Folha de São. Paulo, São Paulo, 8 maio 2005. Suplemento Literário. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ fsp/mais/fs0805200513.htm>. Acesso em: 21 jan. 2013.

RIBEIRO, Roberto Carlos. Escrita do eu: crítica e ficção em Silviano Santiago. Revista Eletrônica Durandina, Juiz de Fora, v. 2, n. 2, 2009.

REVISTA ESCRITOS. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Ruy Barbosa, 2007. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/revistas/Escritos _1/FCRB_ESCRITOS_1_Sumario.pdf>. Acesso em: 22 set. 2013.

SANTIAGO, Silviano. O falso mentiroso: memórias. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

______. Entrevista. In: COELHO, Frederico (Org.). Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011. (Coleção Encontros).

______. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

______. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

______. O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.

______. Eu e as galinhas-d’angola. In: OLINTO, Heidrun Krieger; SCHOLLAMMER, Karl Eric (Org.). Leitura e memória. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2006.

SANTIAGO, Silviano. Meditação sobre o ofício de criar. Revista Gragoatá, n. 31, p. 15-24, 2º semestre/2011. Disponível em: <http://www.uff.br/revistagragoata/ revistas/gragoata31web.pdf>. Acesso em: 7 ago. 2013.

SOUZA, Eneida Maria de. Crítica Cult. Minas Gerais: Ed. UFMG, 2002.

SOUZA, Eneida Maria de; MIRANDA, Wander Melo (Org.). Navegar é preciso, viver: escritos para Silviano Santiago. Belo Horizonte: Ed. UFMG; Niterói: EdUFF, 1997.

 

Simone Greco é Doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Professora de Ensino Médio do Ministério da Defesa/Fundação Osório, desenvolve pesquisa sobre novas estratégias de leitura para narrativas contemporâneas que se organizam entre a ficção e a teoria. 

 

Ilustração: Ripples, de James Jordan/Flickr 

COMO CITAR
GRECO, Simone. A NARRATIVA TEORIZANTE DE SILVIANO SANTIAGO. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. ISSN: 2525-3972 Disponível em http://revistared.com.br/artigo/27/a-narrativa-teorizante-de-silviano-santiago.

Nenhum comentário até o momento

LINKS INTERNOS

Sobre o biografema
TextoEm sua Dissertação de Mestrado, Sandra Coelho Franco (PUC-SP) analisa o biografema como um possível elemento unitário e básico da...
Sobre o biografema
Em sua Dissertação de Mestrado, Sandra Coelho Franco (PUC-SP) analisa o biografema como um possível elemento unitário e básico da biografia tradicional na obra literária e epistolar de Monteiro Lobato. No primeiro capítulo, a autora trata do conceito de biografema e biodiagramação a partir da concepção de Roland Barthes e, no segundo capítulo, procura aprofundar o conceito de leitura biografemática e de suas relações analógicas na prática textual. LINK