Ensaios RESENHA

FALANDO COM ESTRANHOS

 

Graça Ramos

 

O lançamento de Falando com estranhos – o estrangeiro e a literatura brasileira, organizado por Stefania Chiarelli e Godofredo de Oliveira Neto, chega em boa hora para ampliar percepções e propor novas discussões sobre o tema. As análises contemplam largo arco histórico, desde narrativas que mostram primeiras visões do estrangeiro no período colonial até romances contemporâneos publicados na segunda década deste século.

A coletânea traz 17 autores que, no conjunto, articulam espécie de historiografia crítica sobre como a ficção brasileira tem abordado diferenças de pertencimento, movimentos de deslocamentos e experiências de reterritorializações. Lançado pela editora 7Letras, o volume aglutina os textos em cinco eixos: “cartografias, globalização”; “tradição, herança e filiação”; “história, memória e narração”; “estranhos, estrangeiros, viajantes”; “ficção”, que dão conta das diferentes formas estéticas presentes no recorte que efetuaram da literatura brasileira. 

Os organizadores convocaram os autores a partir de uma imagem icônica: a das fotografias encontradas em passaportes e vistos não de turistas, mas de pessoas que partem em busca de outros espaços de sobre-existência. Instantâneos normalmente tensos, registros da ambivalente condição de migrante, a meio caminho entre o antes e o depois, cindido entre origem e destino, flutuando entre a expressão nativa e a adquirida.

Estão presentes 14 ensaios, assinados por Silviano Santiago, Nelson H. Vieira, João Roberto Tonani do Patrocínio, Eurídice Figueiredo, Masé Lemos, Muna Omran, Maria Zilda Ferriera Cury, Alcmeno Bastos, Ana Maria Vieira Silva, Beatriz Resende, Ângela Maria Dias, Claudete Daflon, Giovanna Dealtry e a própria Chiarelli. Os organizadores selecionaram ainda duas narrativas ficcionais, assinadas, respectivamente, por Daniela Versiani e Oliveira Neto, que problematizam o tema e estabelecem diálogo entre a crítica ensaística e a ficção que sabe ser crítica. E, em classificação indefinida, entre o ensaio e a digressão autobiográfica de inspiração psicanalítica, apresentam texto de Paloma Vital.

Chiarelli, professora de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF), e Oliveira Neto, professor na mesma disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), argumentam, na apresentação do livro, que “a reflexão sobre o tema é vital nas circunstâncias em que explodem em todos os cantos do planeta demonstrações de xenofobia e intolerância, esses graves impasses do mundo contemporâneo”. Valorizam também o caráter de solidariedade, ao recortarem do conjunto da literatura brasileira, narrativas em que estrangeiros assumem importância no desenrolar dos enredos.

Mais que a oportunidade política do tema, para além da análise estética de tantos textos que tematizam a alteridade e o viver entremeio a culturas distintas, a coletânea coloca em evidência – e os organizadores apenas comentaram com rápidas pinceladas tal aspecto na apresentação – o compromisso político dos críticos. Referem-se claramente ao legado teórico do acadêmico indo-britânico, Homi K. Bhabha, professor na Universidade de Harvard, que, em O local da cultura, atribui ao crítico a função de “assumir a responsabilidade pelos passados não ditos e assombrar o presente histórico”.

Seguindo essa linha, os textos colocam em evidência o descentrado, o ambivalente, zonas fronteiriças de um existir híbrido que teima em questionar mundos em que ainda habitam inteirezas políticas e estéticas. Constroem importante diálogo teórico, em que referências bibliográficas se repetem e muitos dos títulos dos ensaios abusam da prolixidade, como se duvidassem da capacidade do leitor de apreender o tema apenas pela sugestão que deve ser vetor. Em comum, todos os autores são professores, o que evidencia a importância que o tema vem ganhando nas discussões acadêmicas.

Veja a capa

 

Escolhido para abrir a coletânea com “Deslocamentos reais e paisagens imaginárias – o cosmopolita pobre”, Silviano Santiago assina texto de forte impacto. Apresenta autoral decálogo, que configura espécie de guia metodológico para a discussão do tema. A partir da ressignificação do vocábulo “diáspora”, o autor reflete sobre migrações contemporâneas e sua representação artística, em especial nas Américas. Naquele que é o tópico mais rico do ensaio, Santiago, em diálogo com o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, recupera a figura do pachuco, termo alusivo aos mexicanos-americanos pobres. A partir dessa imagem, propõe discussões sobre a identidade latino-americana desde o pós-guerra e sugere que o cosmopolita pobre, “em qualquer metrópole do mundo ocidental onde se respira abundância”, sempre será um intruso a abrir feridas.  

Professor de estudos portugueses e brasileiros na Brown University, Nelson H. Vieira analisa com rigor perdas emocionais e culturais vivenciadas pelos protagonistas de romances que tratam da emigração para fora do Brasil.  Atém-se, em especial, a Vidas provisórias, de Edney Silvestre, ambientado em New York, e a O único final feliz de uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca, vivenciado em Tóquio. Com o título “Fora do Brasil – globalização e deslocamento na literatura brasileira: migração transnacional e luto cultural”, o ensaio alerta que relatos sobre esse tipo de deslocamento são recentes em nossa literatura, emergindo somente a partir da década de 1990.  E destaca “a necessidade de descobrir e empregar novas coordenadas transnacionais para poder lidar com esta era de migração para fora do Brasil”. Reivindicação para a qual Silviano Santiago fornece alguns caminhos teóricos em seu decálogo.

O romance de Cuenca também é objeto da análise de João Roberto Tonani do Patrocínio, em “Do monstro interplanetário à tradição da poesia tanka, Tóquio pelo olhar estrangeiro de João Paulo Cuenca: uma leitura da coleção Amores Expressos”. Em longa e lúcida análise sobre o papel das viagens de formação na cultura brasileira, ele aproxima os roteiros da coleção ao turismo de massa, mas ressalta não ter identificado nas obras produzidas a partir dessas viagens uma hierarquia entre o nacional e o cosmopolita, como ocorria no passado.

Nessa descentralização globalizada, Paloma Vital, argentina-brasileira, recupera sua chegada, quando criança, ao Rio de Janeiro – inclusive com foto da infância –, para discutir em “E a origem sempre se perde” ideias de nacionalismo e a obsessão pela origem. Em diálogo com autores dos dois países, como Silviano Santiago, Bioy Casares, Allan Pauls e Fabrício Corsaletti, a autora recorda a natureza móvel dos mapas e das identidades, as inadequações vividas por quem se desloca, para propor uma direção de cura ancorada na escrita do desejo.

Em “As paisagens sonoras de Samuel Rawet”, Chiarelli brinda o leitor com diferenciada análise da obra do judeu-polonês-brasileiro. Aponta a importância dos barulhos e ruídos na prosa do escritor, dono de dicção seca, quase áspera, que tantas vezes tematizou o silêncio e a incomunicabilidade. A questão judaica também é o tema de Eurídice Figueiredo, em “A narrativa de filiação de escritores judeus brasileiros”, quando analisa livros de contemporâneos brasileiros dessa ascendência para concluir que ao embaralharem ficção e não-ficção esses romances deixam o leitor em situação instável. Já Muna Omran produz saborosa narrativa intitulada “Uma das mil histórias do Sahrazado Baiano – A descoberta da América pelos turcos”, sobre como a obra de Jorge Amado reforça estereótipos orientalistas. A ensaísta aproxima-se da dicção de uma Sherazad para também falar da confusão que brasileiros ainda fazem com as denominações de turco, árabe e libanês. Do feminino migrante ocupa-se Maria Zilda Ferreira Cury, em “Imigração no feminino: Amrik, de Ana Miranda”. E Masé Lemos debruça-se sobre Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, para expor suas origens orientalistas.

“Os agudás de Um defeito de cor e de A casa da água: africanos e afro-brasileiros, estrangeiros na África”, de Ana Maria Vieira Silva, analisa os avanços e impasses de protagonistas dos dois romances, de autoria respectivamente de Ana Maria Gonçalves e Antonio Olinto, que narram a reterritorialização de brasileiros que deixaram o país e retornaram ao seu mundo original. Em longa e minuciosa pesquisa, Alcmeno Bastos esmiúça a colonização germânica no Sul do Brasil em “A ferro e fogo, de Josué Guimarães: a saga dos primeiros colonos alemães no Rio Grande do Sul e seu alheamento da ambiência sociocultural brasileira”. Quase um contraponto temático, Angela Maria Dias apresenta “A um passo de Elvira Vigna: uma alegoria distópica da mestiçagem brasileira”.

Claudete Daflon demonstra como o médico indigenista judeu-brasileiro Noel Nutels configurou-se como “matéria literária”. No ensaio “Em meiga argila brasileira: o imigrante-cientista”, a autora demonstra que ao se deslocar permanentemente pelo Brasil, Nutels, objeto de poemas e romances biografados, estabeleceu peculiar forma de pertencimento. O oposto do que se depreende da posição do escritor Lima Barreto, que faz do não-pertencimento “tema e impulso” de sua obra, conforme analisa Beatriz Resende, em “Lima Barreto e seus estrangeiros”. A ensaísta demonstra que o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma aproxima-se do olhar e das dificuldades do estrangeiro ao narrar as agruras provocadas pela exclusão econômica, internamentos em clínicas e perda da cidadania pela aposentadoria. Sua análise leva o leitor a situar os excluídos de um país na condição de estrangeiros. 

Uma leitura política aproximada também engendra Giovanna Dealtry, em “Alma-palavra: voz e pertencimento indígena em Habitante irreal, de Paulo Scott”. A partir de um dos mais belos contos de Clarice Lispector, “A menor mulher do mundo”, que narra o encontro entre Pequena-flor e o explorador francês Marcel Petre, a ensaísta analisa a abordagem dada aos indígenas na literatura nacional, tornados estrangeiros na própria terra. E demonstra como o protagonista do romance de Scott busca reparar a morte da mãe, índia guarani, e, ao mesmo tempo, se reconectar com a cultura dos seus antepassados.

A temática indígena domina também o conto de Oliveira Neto, em “Outro”, que narra desencontro violento entre um indígena, formado em biologia e professor, e descendentes de imigrantes em Santa Catarina. Eles disputam a posse da terra, cada um intitulando ao outro de estrangeiro. Aqui, a nota de distinção se dá para a estrutura do texto, que se assemelha aos recursos do jornalismo literário, modo de investigar rarefeito hoje nas coberturas do cotidiano, em especial quando aborda migrações.

Naquele que em termos políticos talvez seja o texto mais atualizado, a ficcionista e professora de teoria literária da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Daniela Versiani, traz para a coletânea, sob a forma ficcional de uma carta a amigos, o tema mais premente hoje nas relações internacionais, o drama dos refugiados, a sua invisibilidade e o precário acolhimento que recebem. Lança mão de alusões e elipses, sem se referir diretamente ao tema, apenas apropriando-se poeticamente de imagens que evocam o flagelo de migrações recentes.  “Em debaixo da janela”, a narradora, que vive “o tempo de espalhar pedras e rasgar tecidos”, provoca o leitor desejando-lhe que se sinta um refugiado: “perdido, confuso e sem resposta”.

Coletâneas, com frequência, apresentam irregularidades. Costumam somar textos mais densos – que enfatizam proposições teóricas, apontam novidades ou primam pela elegância ficcional – a outros mais circunscritos. No caso de Falando com estranhos – o estrangeiro e a literatura brasileira a soma dos 17 textos articula um corpo teórico e de estilos que amplia as noções de ser estrangeiro. Ao término da leitura de suas 261 páginas o leitor poderá perceber, venha de onde vier, que somos todos seres entre-mundos.

 

Graça Ramos é doutora em história da arte e mestre em literatura brasileira.

 

Ilustração: Red investion, Pulpolux/Flickr

COMO CITAR
RESENHA, . FALANDO COM ESTRANHOS. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2015. ISSN: 2525-3972 Disponível em http://revistared.com.br/artigo/19/falando-com-estranhos.

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ImagemOrganização de Stefania Chiarelli e Godofredo de Oliveira Neto - Editora 7Letras
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