Experimentos Susana Fuentes

ORQUESTRA DE BARRO

 

 

as cores da argila,

começa ali a afinação.

o maestro nem traz a batuta.

é com as mãos que rege a sua orquestra

de instrumentos feitos de barro

(dos muitos dedos

na labuta em torno do barro).

de quando o araripe abriu caminho até o rio e disse

é aqui.

colham o barro, sequem, amassem com os pés.

levem ao fogo.

e faça-se a música.

 

das mãos na argila fez-se panela e cuia,

o apito, a cuíca, o tambor.

cada entrada a seu tempo.

 

a menina na marimba

é firme.

 

nos tambores,

os meninos se não fosse o maestro

disparavam.

mas olham, esperam

e contêm a intensidade

do movimento em síncopes.

 

bombos, caixas, xilofone,

naipe da percussão.

cada um aprende (e completa)

o ritmo que traz dentro de si.

 

a panela que comprei ontem traz ainda o som da água

o murmúrio do rio

de onde veio a argila e as cores usadas para pintar.

vermelho, amarelo,

púrpura, laranja,

marrom. oxum.

 

nos rios o barro vale mais que ouro

na batida das mãos espalmadas.

é como sovar o pão só que não é com raiva.

 

à beira do rio é tranquilo

é um se deixar levar.

na tarde tem borbulho

marrom claro água de rio

e céu cor de abóbora.

 

é como os vários tons das frutas –

amarelo pêssego, uva-passa,

broto verde, até secar marrom.

marrom de casca madura e seca.

da vida ao sol  –

e da ternura dos dedos.

 

dedos que amassaram, giraram

onde agora

os meus

contornam os sulcos.

e levam-me à beira do rio

(quando toca a orquestra).

 

afundo os pés, encharco a pele

fresca e gelada

de argila.

 

na moringa

escorre água das mãos dos meninos  –

das meninas.

na bacia,

o som fala  – 

e é no corpo inteiro

que estremeço.

o som fala da tribo,

do começo.

de quando estávamos lá. eu pelo menos estive

soube disso quando ribombou toda a orquestra.

a menina no tímpano

no ataque da música.

o menino

no bongô.

e não era mais pensamento,

só vibração

cadência, e ritmo.

 

as mãos do maestro

provam o barro, acalmam o rio

amansam o menino, que se deixar é como eu te disse ele dispara.

as mãos do maestro

no controle da orquestra, no contorno da música

feita de barro e  crianças

feitas de

sóbrios músicos intérpretes

olhos doces, chispas de fogo, caramelos, pretos, redondos, rasgados

com seus amigos para toda a vida

feitos de argila

na pele todas as cores do brasil.

 

e ouço e me lembro de um mundo que não existe na televisão,

é um mundo que só existe por onde o rio passa.

ou toda vez que ele fala  –

esse rio que virou orquestra.

 

o rio fala

de quando eu andava descalça na chuva

(ou no temporal

sob a cascata das telhas)

e minha mãe, não saia, fique em casa,

sem lembrar que ela mesma soltava num só fôlego as próprias tranças

que meu avô mandava fazer quando pequenina (e as tias lhe escovavam o cabelo

para trás muito puxado).

minha avó quando menina

um dia

também quis correr.

e a bisavó se equilibrava no alto de um banquinho

para alcançar o fogão (porque a madrasta,

você que se vire, dizia, na hora do jantar).

 

por isso hoje disparo, corro entre elas, por elas.

quando piso no palco ou no papel finco a palavra (não comportada no corpo).

encharco a página.

e não parto da folha em branco,

é a folha que se parte em outras

porque é uma página feita de pedaços (escura e com manchas).

 

o sol na pele fica ainda mais bonito.

porque escrevo e tenho um corpo

fico descalça,

sujo as mãos

na terra.

subo as escadas,

atravesso a página,

na vida com os pés.

na chuva, no palco sem sapatos

encontro o que veio antes de mim

e ainda virá.

 

Susana Fuentes é escritora e atriz, autora do romance Luzia (7Letras, 2011), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, do livro de contos Escola de Gigantes (7Letras, 2005) e do megamíni Anotações de Berlim (7Letras, 2016). Escreveu a peça teatral Prelúdios: em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, onde também atua, selecionada para o “The New York International Fringe Festival” em 2012. Um de seus contos foi publicado na revista inglesa Wasafiri (2015) em tradução de Alison Entrekin. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ, onde cursou Letras e desenvolveu pesquisa de Pós-Doutorado com bolsa CAPES/FAPERJ.

 

Ilustração: Pots, Antony/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

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COMO CITAR 
FUENTES. Susana. Orquestra de barro. RED_Revista de Ensaios Digitais. Rio de Janeiro. Número 1, 2016. Disponível em: http://revistared.com.br/artigo/100/orquestra-de-barro

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